Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Zumbi" - "The Butterfly Circus"

05/02/2010
Uma luta pela vida

Decidi dar uma palhinha aqui da nova edição do livro "Uma luta pela vida" escrito por minha irmã. O livro estava esgotado, mas agora apareceu de novo e pode ser comprado pela Internet. Se você ler o livro, nem vai precisar mais vir aqui para ler minha história... Estou brincando, claro!
LOL

Uma Luta Pela Vida
Lia Persona


O vôo 3805 proveniente de Brasília chegava no horário previsto e preparava-se para pousar. Do andar superior do aeroporto eu podia ver as luzes do avião se aproximando rapidamente. Com apenas seis anos de idade, esticava o quanto podia meu corpinho para enxergar melhor. Lembro-me de como as janelas do avião pareciam incrivelmente pequenas da distância onde eu me encontrava. Tive uma impressão ruim. Minha mente infantil tentava imaginar como seria possível alguém viajar dentro de um avião que parecia ser tão pequeno. Fiquei preocupada só de pensar no tamanho do irmão que meus pais diziam que eu estava prestes a ganhar. Seria do tamanho de minha boneca Barbie?

Senti um certo alívio quando o vi pela primeira vez alguns minutos mais tarde, saindo pelo portão de desembarque. Vinha nos braços de uma mulher que não me era estranha. Ela já tinha nos visitado em outras ocasiões, mas sua chegada nunca fora cercada de tanta expectativ. Maria parecia não precisar fazer muita força para manter aquele corpoinho franzino aninhado em seus braços. Se não fosse pela tosse constante, ele passaria desapercebido. Não pesava mais do que uma bolsa. Pequena.

Maria era a pessoa certa para trazer Pedro. Tinha uma experiência de vida bem peculiar. Adotara oito crianças, algumas com problemas de saúde. Tirou-o do local onde estava, cuidou dele o sufciente para aguentar uma viagem e o trouxe em segurança para nós.

Arregalei meus olhos o máximo que pude. Não queria perder um detalhe sequer daquele primeiro momento. Captei cada particularidade do corpo daquela criança que era passada para os braços da minha mãe. Ela não precisou carregá-lo nove meses antes de nascer. Estava carregando agora pela primeira vez. Um menino de quatro anos. Achei que ele não combinava com minha mãe. Não parecia ser seu filho.

Tudo era diferente nele. Diferente da aparência de meu irmão biológico Lucas e da minha. Seu cabelo volumoso, cacheado e escuro não se parecia em nada com os nossos poucos fios descorados e escorridos. Nem que eu ficasse um ano inteiro tomando sol não conseguiria ficar com a pele tão morena quanto a dele. Maria contou que ele era descendente de negros e índios. Imaginei seus avós caçando com arco e flecha como nos desenhos que eu pintava na escola no Dia do Índio.

Não tive tempo de prosseguir com minhas imaginações. Saímos rapidamente do aeroporto noite adentro andando em direção ao carro no estacionamento. Pedro precisava descansar. Cada vez que ouvia sua tosse, meu coração acelerava. Fiquei assustada com seu estado. Parecia estar muito doente.

Aquele momento ainda permanece em minha memória. Acalentado, embalado, com todo o cuidado, dia após dia, não por saudosismo ou melancolia. Simplesmente por carinho e respeito. Essas coisas a gente não esquece facilmente. Aquela noite mudou minha vida.

Na verdade, mudou a vida de toda minha família e também a vida daquele que chegou numa cegonha a jato. Chegou para ficar. Foi o dia em que um novo começo foi traçado e todo meu futuro mudou. Tomou um novo caminho, um novo rumo. Muito do que sou hoje devo àquilo que considero como uma das melhores experiências que já me ocorreu. Recebi de presente uma lição de vida real, que estaria sempre ali, bem diante de meus olhos e de onde iria tirar inspiração para cada dia, para todos os que meu futuro ainda me reserve.

(continua no livro...)

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"Zumbi" - "The Butterfly Circus"


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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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