Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Vida regrada" - "Uma mão"

26/02/2009
Cabeça ao vento

Quem disse que eu não mudo? Olhaí meu novo visual, uma mescla de jogador de basquete da NBA e intelectual. Mas nada disso foi decisão minha, sabia? É que aqui eu sou o último que fala e o primeiro que tem a cabeça rapada!
wink



Vou contar o que aconteceu. Meu pai foi viajar para visitar meu sobrinho no exterior e eu virei personagem do filme "Esqueceram de mim". Quer dizer, nem tanto, porque meu pai deixou duas pessoas para cuidarem de mim. Duas! Exagero, não? Bem, no fundo, no fundo, eu mereço, porque sou um cara muito especial.

Então uma das senhoras que se revezam em cuidar de mim foi cortar meu cabelo e escapou a pecinha de plástico da máquina que regula a altura do corte. Zapt! De repente meu cabelo ficou com uma janela que quase dava para ver o cérebro. Quando meu pai chegou achou melhor nivelar tudo por baixo. Bem baixo.

Esses óculos que me dão um ar de intelectual já são outra história. Se der uma olhada na coluna da direita desta página... (não, aí não, desce mais... isso, onde eu apareço aos 4 anos com minha irmã que tinha 6 anos...) você verá que eu já usei óculos. A foto da coluna da direita é de quando fizeram meus primeiros óculos achando que eu ia dar pulos de alegria por estar enxergando. Não dei.

Com o tempo meus pais desistiram de me fazer usar óculos porque eu destruía todos. A última tentativa foi quando eu tinha 12 anos. Agora, aos 26 anos de idade (é, eu sei, não aparento, devo ter puxado minha mãe adotiva que caiu no formol quando criança) meu pai achou que eu já estava pronto para descobrir o maravilhoso mundo da visão.

Se estou enxergando? Não digo, você terá de adivinhar. Mas meu pai acha que sim, porque quando ele diz "Olha pro papai" eu viro a cabeça na direção dele. Hummm... vou dar uma dica: deficiente visual não é quem não enxerga, mas quem não pode se valer da visão para a maioria das atividades. Então quem enxerga luz e sombra, mas sem nitidez para pilotar um F-15 pode ser deficiente visual.

E por falar nisso aqui vai uma dica de meu pai de um filme espetacular: "Vermelho como o céu", baseado numa história real. Assista e você vai entender um pouco do mundo de um deficiente visual e das razões pelas quais ele deve ser integrado no convívio na escola e no trabalho normalmente, porque no fundo ele não é deficiente, mas diferente e eficiente naquilo que a maioria das pessoas é deficiente. E há coisas que só um deficiente visual é capaz de fazer. Não entendeu? Vou repetir: Há coisas que só um deficiente visual é capaz de fazer. Não se esqueça disso.


"Vida regrada" - "Uma mão"


Oi Pedro,

Que lindo. Tá parecendo mesmo jogador de basquete... rsrsrsrsr

Enviado por Eduardo - Araranguá - SC em 24/03/2010


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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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