Não sei bem o que aconteceu, mas meu pai não está de cara boa comigo estes dias. Será que é porque eu acordei três vezes durante a noite antes de ontem e hoje já estava desperto e animado às 4:30 da manhã?
Não tenho culpa se peguei gosto por uma passeadinha engatinhando de madrugada rumo ao banheiro. Normalmente eu durmo bem a noite inteira, das 22:00 às 7:30, mas com essa história de "ano novo, vida nova" decidi mudar.
Meu pai reclama porque cada vez que acordei nas últimas noites para ir ao banheiro a ordem dos fatores realmente alterou o produto. É que eu sempre fazia xixi antes de ir ao banheiro, e lá ia uma fralda. Três acordadas dessas durante a noite custam três fraldas, porque meu pai não deixa eu voltar para a cama com a fralda molhada, mesmo que só um pouquinho. Não sei por que.
Oras, que culpa tenho eu se o clima está mudando com o aquecimento? Quanto mais aquece, mais a gente bebe água, e ela acaba saindo por algum lugar. Meu pai devia estar agradecido, isto sim. Em uma época quando todo mundo está preocupado com a falta de água meu pai deve ser o único que está preocupado com o excesso.
Ele está achando que tudo começou com essa história de festas de fim de ano. Descontrolou meu relógio biológico e agora ninguém sabe onde fica o botão para controlar de novo. Pode ser. Pessoas iguais a mim são muito sistemáticas e precisam ter uma vida bem regrada. O problema é que, com tantas idas ao banheiro à noite, minha vida está mais para bem regada.
Oi, Pedro! Estou no rol do seu pai no Orkut, mas não nos conhecemos. Admiro o Mario por vários motivos, mas não vou discorrer sobre eles. Não quero lhe cansar. Comecei a ler seu blog ontem, aniversário do seu pai. Já coloquei nos meus favoritos e escrevi um post no meu blog sobre este aqui. Espero que não fique bravo comigo, tá? É que quando eu descubro algo que me ensina a ser melhor, não consigo ficar de boca fechada e tenho que contar para as pessoas. Por isso, sempre que posso, falo de Jesus (mas dEle eu não preciso falar pra você; seu pai já faz isso, né?). Ainda estou no início da sua história, embora já tenha lido vários dias, mas não vejo a hora de conhecer você melhor e aprender tudo o que você tem a me ensinar. É uma pena que eu tenha que ir dormir agora (gente grande também precisa de ter hora pra dormir e a minha já passou. Ah! A culpa é sua!! rsrs). Fica com Deus e obrigada por existir, tá? Um beijo, Nane
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.