Estava aqui pensando com meus botões, apesar de usar camiseta. Pouca gente liga a questão do aborto com a questão da inclusão dos portadores de deficiência na sociedade. Mas será que não é contraditório aceitar uma coisa independente da outra? Prepare-se para uma viagem em minhas elocubrações que levarão você a visitar seus ancestrais.
Tirando aquele aborto que as pessoas fazem porque não querem a criança de jeito nenhum, alguns aprovam o aborto em caso de má formação do feto. Ou seja, se for para a criança nascer deficiente, é melhor abortar. Pelo menos é esta a idéia de muitos.
Por ser portador de deficiência eu provavelmente seria candidato a ter minha missão abortada se tivesse sido gerado no útero de alguém seletivo assim. Ou devo dizer discriminatório? Alguém que não quer um filho porque terá deficiências no futuro pode ser considerada uma pessoa que apóia a inclusão de deficientes?
Acho que não. Como alguém assim pode apoiar a inclusão se acha melhor excluir antes de nascer? O detalhe é que qualquer pessoa que nasceu com tudo em cima poderá desenvolver alguma deficiência em caso de doença ou acidente. Não seria irônico alguém que um dia descartou seu filho por ser deficiente acabar sendo um?
Mas há abortos aprovados até pelas leis de alguns países, como em caso de estupro. Eu nem imagino o que seja passar pela situação, mas pensando como alguém que não tem esse problema para resolver, eu acho que enquanto o estupro faz uma vítima inocente - a mãe - o aborto faz outra vítima inocente, a criança. Quase posso ouvir o menino reclamando:
- Ô manhê! Num tenho nada a ver com isso não!
Quantas pessoas vieram ao mundo e nem sabem que foram geradas por estupro? Deve ter um bocado por aí. O que teria acontecido se elas tivessem sido privadas de nascer?
Considerando que todos nós temos atrás de nós uma enorme árvore genealógica, qual de nós pode afirmar com certeza que não é fruto de um estupro? Vai que sua ta-ta-ta-ta-ra-vó estava viajando tranquilamente em um navio abordado por piratas. Sabe o que os piratas faziam com as mulheres? Pois é, se aquela sua ancestral fosse moderninha você nem estaria lendo isto aqui.
É difícil dizer quem é descendente de um estupro e quem não, mas quando você pega, por exemplo, os judeus, fica mais fácil. Um dia um judeu disse para meu pai que ele só era ruivo de olhos azuis porque alguma mulher em sua árvore genealógica tinha sido estuprada por algum bárbaro europeu.
Os judeus originais são morenos como qualquer habitante original do Oriente Médio, e considerando que sua religião não aprova o casamento com outras etnias, os judeus ruivos ou louros de olhos claros que você conhece provavelmente ganharam sangue bárbaro nas invasões de suas comunidades e rapto de suas donzelas tataravós. Detalhe: alguém é considerado judeu se for descendente de mãe judia.
Tem muita gente que lida muito bem com o fato de ser filho ou filha de um estuprador. Esta aqui é uma. Rebecca não só lida bem com isso como é contra aborto em caso de estupro. E como poderia ser diferente? Se a mãe dela, estuprada com uma faca encostada no corpo, decidisse não seguir adiante com a gravidez ela não teria nascido. Eu mesmo nem sei como foi o meu caso.
Bem, deixe-me voltar aos botões de minha camiseta porque hoje meu papo está muito complicado e devo ter levantado algumas pulgas atrás de orelhas por aí...
Olá Pedro. Já quero começar parabenrizando o artigo! Segundo dizer que não só aumentou mais melhorou e muito minha visão com relação a este tema. Com certeza eu viajei no tempo e como sou A Afro-brasileiro provavelmente eu me encaixe neste quadro, já que meus ancestrais foram traficados da África para o Brasil e sofreram por séculos e séculos todos os tipos de mal tratos que se possa imaginar.
Olá Pedro. A principio quero confessar que navegando sem rumo na net, me deparei com esta página maravilhosa, e confesso estar passando por aqui outras vezes, nada a ver mas, tambem sou um deficiente fisico.
Adoro este seu cantinho. Hoje vim lhe trazer um presentinho. Um selo para colocar aqui no seu blog. Passe lá no Educar Já! para pegá-lo e entre na brincadeira. beijinhos
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.