Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Pequenos prazeres" - "Missão abortada"

15/11/2008
Cadastro Local de Adossão

Você viu isso? Meu pai leu no Estadão que 55% das famílias que querem adotar uma criança não ganham mais do que 5 salários mínimos. E tem mais no Cadastro Nacional de Adoção.
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Mais de onze mil famílias estão na fila para adotar uma criança, só que aí começam os problemas. Já que 80,7% ou 9 mil famílias querem crianças de até 3 anos, e só existem 1600 crianças nessa idade cadastradas para adoção, eu pergunto se pretendem chamar o Rei Salomão para resolver a questão.

Não conhece a história? Quando duas mães disputavam a maternidade de uma criança porque o filho de uma delas tinha morrido, Salomão pediu uma espada e disse que ia dividir a criança e dar metade para cada uma. Uma mulher achou que era justo, mas a outra ficou desesperada e disse que o rei podia entregar a criança inteira à outra. Na mesma hora Salomão soube quem era a mãe verdadeira.

Mas voltando à divisão das crianças de até 3 anos, ainda bem que eu tinha 4 anos quando meus pais me adotaram, ou eles só iam levar um pedaço de mim. Mas o problema continua. Ninguém quer adolescentes, e eles são a metade das crianças disponíveis para adoção. Metade estatisticamente, não literalmente, tá?

Quer mais? 66,5% das famílias não querem crianças negras, só brancas ou pardas. Antes que você ache isso uma atitude racista, é bom saber que apenas 30% dos pretendentes a adotar são negros. E antes que a gente fique aqui perdendo tempo falando de diferentes raças, segura esta: "A pesquisa da variação do genoma não endossa a existência de diferentes raças humanas". Ou seja, as diferenças biológicas entre os seres humanos são tão desprezíveis que hoje muitos cientistas concordam que só existe uma raça: a humana.

Continuando o assunto da adoção, todo mundo pensa que adota mais quem tem mais dinheiro, né? Errado. Da lista de pretendentes a adotar, apenas 5% das famílias ganham mais de 8 mil reais. E veja que isso é renda familiar.

Eu acho que é muito bom esse estudo, mas será que é verdade? Tem tanta gente por aí que adota sem adotar, que fica difícil contar tudo. É comum, principalmente no interior, tios e avós acabarem adotando sobrinhos e netos, ou até mesmo pessoas sem qualquer parentesco acabarem adotando o afilhado, o filho do amigo, vizinho ou empregado que morreu. Tipo adoção informal, sem papel e coisa do tipo.

Para entender isso você só precisa dar uma volta pelo interiorzão desse nosso país. Na maioria das cidades pequenininhas do sertão você não encontra criança abandonada, menino na rua virando lata de lixo para comer ou pedindo esmola no semáforo. Pra começar nem semáforo tem nesses lugares, e muito menos lata de lixo.

O que acontece com as crianças órfãs e abandonadas desses povoados? Desaparecem naturalmente? Não, elas são adotadas, sem aparecer nas estatísticas. Elas não aparecem no Cadastro Nacional de Adoção oficial, mas pode ter certeza de que elas existem e estão no Cadastro Local de Adossão, o informal.

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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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