Você viu isso? Meu pai leu no Estadão que 55% das famílias que querem adotar uma criança não ganham mais do que 5 salários mínimos. E tem mais no Cadastro Nacional de Adoção.
Mais de onze mil famílias estão na fila para adotar uma criança, só que aí começam os problemas. Já que 80,7% ou 9 mil famílias querem crianças de até 3 anos, e só existem 1600 crianças nessa idade cadastradas para adoção, eu pergunto se pretendem chamar o Rei Salomão para resolver a questão.
Não conhece a história? Quando duas mães disputavam a maternidade de uma criança porque o filho de uma delas tinha morrido, Salomão pediu uma espada e disse que ia dividir a criança e dar metade para cada uma. Uma mulher achou que era justo, mas a outra ficou desesperada e disse que o rei podia entregar a criança inteira à outra. Na mesma hora Salomão soube quem era a mãe verdadeira.
Mas voltando à divisão das crianças de até 3 anos, ainda bem que eu tinha 4 anos quando meus pais me adotaram, ou eles só iam levar um pedaço de mim. Mas o problema continua. Ninguém quer adolescentes, e eles são a metade das crianças disponíveis para adoção. Metade estatisticamente, não literalmente, tá?
Quer mais? 66,5% das famílias não querem crianças negras, só brancas ou pardas. Antes que você ache isso uma atitude racista, é bom saber que apenas 30% dos pretendentes a adotar são negros. E antes que a gente fique aqui perdendo tempo falando de diferentes raças, segura esta: "A pesquisa da variação do genoma não endossa a existência de diferentes raças humanas". Ou seja, as diferenças biológicas entre os seres humanos são tão desprezíveis que hoje muitos cientistas concordam que só existe uma raça: a humana.
Continuando o assunto da adoção, todo mundo pensa que adota mais quem tem mais dinheiro, né? Errado. Da lista de pretendentes a adotar, apenas 5% das famílias ganham mais de 8 mil reais. E veja que isso é renda familiar.
Eu acho que é muito bom esse estudo, mas será que é verdade? Tem tanta gente por aí que adota sem adotar, que fica difícil contar tudo. É comum, principalmente no interior, tios e avós acabarem adotando sobrinhos e netos, ou até mesmo pessoas sem qualquer parentesco acabarem adotando o afilhado, o filho do amigo, vizinho ou empregado que morreu. Tipo adoção informal, sem papel e coisa do tipo.
Para entender isso você só precisa dar uma volta pelo interiorzão desse nosso país. Na maioria das cidades pequenininhas do sertão você não encontra criança abandonada, menino na rua virando lata de lixo para comer ou pedindo esmola no semáforo. Pra começar nem semáforo tem nesses lugares, e muito menos lata de lixo.
O que acontece com as crianças órfãs e abandonadas desses povoados? Desaparecem naturalmente? Não, elas são adotadas, sem aparecer nas estatísticas. Elas não aparecem no Cadastro Nacional de Adoção oficial, mas pode ter certeza de que elas existem e estão no Cadastro Local de Adossão, o informal.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.