Meu pai gosta de contar a história de quando viajou a Brasília com meu avô no Opala. Meu pai mal tinha completado dezoito anos e resolveram fazer a viagem numa tirada só, Limeira-Brasília, com escalas só para o xixi.
Quando chegaram lá, à noite, num bagaço de dar dó e naquela sequidão da falta de chuva do Planalto, uma opção para o Saara que tinham na garganta era tomar um espanador de meia em meia hora. A outra era um chope gelado num boteco de posto de gasolina que havia bem na frente do hotel. Preferiram a segunda e terceira opções.
Sim, havia uma terceira, que era a única coisa para se comer no lugar: pizza brotinho, daquelas que cabem num pires e só vêm com uma fatia de mussarela em cima, uma partícula de orégano e uma gota de óleo de soja com cheiro de azeite de oliva. Quer saber? Até hoje meu pai diz que foi a melhor pizza do mundo.
O prazer das pequenas coisas só sente quem normalmente não pode desfrutá-las. Se você está lendo isto sem a ajuda de um software que transforma texto em voz é porque deve ter olhos para ver. Já se deu conta do prazer que é enxergar? Muita gente não tem. Olfato, tato, paladar, audição - outras quatro coisas que nem percebemos que estão lá até faltarem. Quer mais? Mãos, pés, fígado, rins, coração, mente... a lista é do tamanho de você.
Meu pai gostou do que a Mafalda Ribeiro, portadora de "ossos de vidro", escreveu em seu livro "Mafaldisses", contando de cadeiras especiais disponibilizadas para deficientes físicos em uma praia de Portugal:
"As chamadas tiralôs ajudam há três anos consecutivos os deficientes motores a sentirem o sal na pele, o bater da maré, a espuma das ondas e o paladar salgado a tocar nos lábios. Banhistas comuns jamais perceberão a importância dessas sensações, a não ser que um dia o destino lhes pregue uma peça e, por exemplo, num mergulho mal dado transformem-se num de nós: pessoas portadoras de deficiência".
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.