Quando chega o dia dos pais meu pai sempre pensa mais em meu avô. Pensa tanto que de vez em quando até escreve alguma coisa. Desta vez ele escreveu uma crônica e gravou um vídeo. Vou publicar aqui para você também pensar um pouquinho no seu pai e no seu avô.
Um Chevrolet Opala zerinho, rosé-metálico, duas portas, rodas tala-larga, que causava sensação por onde passava. Foi o carro que meu pai comprou logo que tirei minha carteira de motorista. Não era para mim, era para ele. O carro dos seus sonhos.
Quando o Opala chegou, meu pai me entregou as chaves sem qualquer restrição ou hesitação. Eu conhecia bem os limites e sabia também o quanto ele gostava daquele carro. Odiaria desapontá-lo traindo sua confiança. Eu o dirigia do jeito que ele havia me ensinado, mantendo o ovo no capô do carro.
Eu sabia de cor a história dos motoristas de Rolls Royce que eram treinados para não derrubar um ovo de sobre o capô do automóvel. A história que meu pai volta e meia recontava era uma metáfora, pois no capô do fusquinha no qual aprendi a dirigir teria sido impossível manter até um ovo frito.
Foi com histórias, parábolas e analogias que cresci e aprendi, e com a relação de confiança e respeito que meu pai foi construindo entre nós. Eu raramente levava bronca. Nem quando precisei de um pedacinho de madeira e serrei o primeiro centímetro do metro de dobrar que ele usava em sua oficina no quintal. Eu nunca soube quantas tábuas ele serrou com a medida errada.
Quando precisei de um prego do tamanho certo para meu carrinho de rolimãs, o pino central do paliteiro de prata de minha mãe serviu direitinho. Percebi que meu pai ficou desapontado, mas não entendi como um paliteiro podia ser mais importante do que um carrinho de rolimãs. Meu pai me compreendia.
Eu respeitava meu pai, e acho que isso tinha muito a ver com a confiança que ele depositava em mim até nas situações mais esdrúxulas. Como no caso do cigarro. Eu devia estar no curso primário quando disse a ele que queria fumar. Qualquer criança que pedisse isso levaria uns tabefes. Não de meu pai.
Mandou que eu fosse ao Bar do Jacó comprar um maço de cigarros e, depois de me ensinar a acender e tragar, foi trabalhar. Engasguei, tossi e quase vomitei, sem falar da brasa que fez um furinho no sofá de meu quarto, mas que eu deixei para revelar em outra ocasião. Quando ele voltou do trabalho devolvi o maço faltando apenas um cigarro.
Aquele maço ficou anos em cima do guarda-roupa para eu pedir a ele quando quisesse. Na escola não era para aceitar cigarros de amigos, só dele. Afinal de contas, eu era seu filho! Lembro-me daquele maço empoeirado em cima do guarda-roupa toda a minha infância e adolescência, como um lembrete da confiança que ele depositava em mim. Nunca fumei.*
As chaves do Opala eram uma espécie de voto de confiança para inaugurar minha fase adulta. O carro ainda cheirava a novo quando um dia ouvi um barulho de liquidificador. Pelo retrovisor lateral vi a tala-larga da roda traseira ficar cada vez mais larga, até a roda sair inteira. Alguma peça se quebrou dentro do diferencial moendo as engrenagens e soltando o eixo com roda e tudo.
Passado o susto do incidente e da conta do mecânico, meu pai contou o caso numa daquelas rodas de parentes em festa de aniversário. Ali, na frente de todos, alguém inventou que me viu pela cidade dando arrancadas e cavalos-de-pau com o Opala de meu pai. Neguei, mas de que valia a palavra de um adolescente em uma roda de adultos?
Na volta para casa meu estômago doía só de pensar que meu pai pudesse ter acreditado naquela história. Esperava ouvir uma palavra de desapontamento, mas não foi o que aconteceu. Quebrando o silêncio que pairava no interior do Opala, meu pai me tranqüilizou:
- Em quem você acha que eu acredito? Nele ou em você? Oras, você é meu filho!
Tentei esconder os olhos úmidos. Aquele momento foi único, algo que nunca mais esqueci e que ficou só entre nós. Meu pai, o Opala e eu.
*Cabe aqui um esclarecimento quanto à cultura e costumes da época. Hoje o método usado por meu pai em relação ao cigarro não faria sentido para as novas gerações por causa do volume de informação que temos. Quando eu era criança a maioria das pessoas ignoravam qualquer ameaça séria do cigarro à saúde e os próprios fabricantes escondiam a sete chaves as descobertas da relação entre o cigarro e o câncer.
Para meu pai e para qualquer pessoa da época os únicos danos causados pelo cigarro eram tosse, mau hálito, dentes amarelos e coisas semelhantes. Embora meus pais não fumassem, grande parte dos adultos fumavam porque era algo considerado sofisticado. Eu e qualquer criança da época costumávamos ganhar dos pais as caixinhas de cigarro de chocolate da marca Pan e fingíamos fumar. Qualquer empresa hoje que tentasse lançar algum chocolate ou brinquedo em formato de cigarros certamente teria seu produto proibido ou execrado pela opinião pública. Veja mais sobre os cigarrinhos de chocolate Pan no blog "Embalagem Marca"
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.