Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Hakani, uma menina chamada sorriso" - "Mafaldisses"

09/08/2008
Meu pai, o Opala e eu

Quando chega o dia dos pais meu pai sempre pensa mais em meu avô. Pensa tanto que de vez em quando até escreve alguma coisa. Desta vez ele escreveu uma crônica e gravou um vídeo. Vou publicar aqui para você também pensar um pouquinho no seu pai e no seu avô.
LOL



Um Chevrolet Opala zerinho, rosé-metálico, duas portas, rodas tala-larga, que causava sensação por onde passava. Foi o carro que meu pai comprou logo que tirei minha carteira de motorista. Não era para mim, era para ele. O carro dos seus sonhos.

Quando o Opala chegou, meu pai me entregou as chaves sem qualquer restrição ou hesitação. Eu conhecia bem os limites e sabia também o quanto ele gostava daquele carro. Odiaria desapontá-lo traindo sua confiança. Eu o dirigia do jeito que ele havia me ensinado, mantendo o ovo no capô do carro.

Eu sabia de cor a história dos motoristas de Rolls Royce que eram treinados para não derrubar um ovo de sobre o capô do automóvel. A história que meu pai volta e meia recontava era uma metáfora, pois no capô do fusquinha no qual aprendi a dirigir teria sido impossível manter até um ovo frito.

Foi com histórias, parábolas e analogias que cresci e aprendi, e com a relação de confiança e respeito que meu pai foi construindo entre nós. Eu raramente levava bronca. Nem quando precisei de um pedacinho de madeira e serrei o primeiro centímetro do metro de dobrar que ele usava em sua oficina no quintal. Eu nunca soube quantas tábuas ele serrou com a medida errada.

Quando precisei de um prego do tamanho certo para meu carrinho de rolimãs, o pino central do paliteiro de prata de minha mãe serviu direitinho. Percebi que meu pai ficou desapontado, mas não entendi como um paliteiro podia ser mais importante do que um carrinho de rolimãs. Meu pai me compreendia.

Eu respeitava meu pai, e acho que isso tinha muito a ver com a confiança que ele depositava em mim até nas situações mais esdrúxulas. Como no caso do cigarro. Eu devia estar no curso primário quando disse a ele que queria fumar. Qualquer criança que pedisse isso levaria uns tabefes. Não de meu pai.

Mandou que eu fosse ao Bar do Jacó comprar um maço de cigarros e, depois de me ensinar a acender e tragar, foi trabalhar. Engasguei, tossi e quase vomitei, sem falar da brasa que fez um furinho no sofá de meu quarto, mas que eu deixei para revelar em outra ocasião. Quando ele voltou do trabalho devolvi o maço faltando apenas um cigarro.

Aquele maço ficou anos em cima do guarda-roupa para eu pedir a ele quando quisesse. Na escola não era para aceitar cigarros de amigos, só dele. Afinal de contas, eu era seu filho! Lembro-me daquele maço empoeirado em cima do guarda-roupa toda a minha infância e adolescência, como um lembrete da confiança que ele depositava em mim. Nunca fumei.*

As chaves do Opala eram uma espécie de voto de confiança para inaugurar minha fase adulta. O carro ainda cheirava a novo quando um dia ouvi um barulho de liquidificador. Pelo retrovisor lateral vi a tala-larga da roda traseira ficar cada vez mais larga, até a roda sair inteira. Alguma peça se quebrou dentro do diferencial moendo as engrenagens e soltando o eixo com roda e tudo.

Passado o susto do incidente e da conta do mecânico, meu pai contou o caso numa daquelas rodas de parentes em festa de aniversário. Ali, na frente de todos, alguém inventou que me viu pela cidade dando arrancadas e cavalos-de-pau com o Opala de meu pai. Neguei, mas de que valia a palavra de um adolescente em uma roda de adultos?

Na volta para casa meu estômago doía só de pensar que meu pai pudesse ter acreditado naquela história. Esperava ouvir uma palavra de desapontamento, mas não foi o que aconteceu. Quebrando o silêncio que pairava no interior do Opala, meu pai me tranqüilizou:

- Em quem você acha que eu acredito? Nele ou em você? Oras, você é meu filho!

Tentei esconder os olhos úmidos. Aquele momento foi único, algo que nunca mais esqueci e que ficou só entre nós. Meu pai, o Opala e eu.






*Cabe aqui um esclarecimento quanto à cultura e costumes da época. Hoje o método usado por meu pai em relação ao cigarro não faria sentido para as novas gerações por causa do volume de informação que temos. Quando eu era criança a maioria das pessoas ignoravam qualquer ameaça séria do cigarro à saúde e os próprios fabricantes escondiam a sete chaves as descobertas da relação entre o cigarro e o câncer.

Para meu pai e para qualquer pessoa da época os únicos danos causados pelo cigarro eram tosse, mau hálito, dentes amarelos e coisas semelhantes. Embora meus pais não fumassem, grande parte dos adultos fumavam porque era algo considerado sofisticado. Eu e qualquer criança da época costumávamos ganhar dos pais as caixinhas de cigarro de chocolate da marca Pan e fingíamos fumar. Qualquer empresa hoje que tentasse lançar algum chocolate ou brinquedo em formato de cigarros certamente teria seu produto proibido ou execrado pela opinião pública. Veja mais sobre os cigarrinhos de chocolate Pan no blog "Embalagem Marca"


"Hakani, uma menina chamada sorriso" - "Mafaldisses"


Pedro
Trabalhei com crianças especiais como você até 2004. Hoje ainda relembro as lições de perseverança e tenacidade que vivi de perto muitas vezes. Hoje encontrei este diário delicioso que seu pai faz com tanto amor por você. Tenha a certeza, meu querido,de ser amado de uma forma que muitos gostariam. Um amor que não mediu limitações...não mediu esforços...não mediu recursos...não mediu nada além da vontade de amar!
Louvado seja Deus por ter enviado a você essa família e que Ele consiga tocar também outros corações para que outros "Pedrinhos" encontrem esse carinho. Vou tentar achar o livro por aqui. Fica com um beijo carinhoso...ah! Um dia te conto como vim parar aqui...rs...

Enviado por Márcia Valente em 13/02/2010


meu pai também era apaixonado por um carro velho, uma belina 86, até que eu comprei meu primeiro carro uma tempra 95 aí ele rapidinho trocou de carro...rss bons tempos.

Enviado por boutique arte angels em 01/12/2009


Gostei deste post porque ele narra a pura e simples evolução da humanidade quando um homem tão culto percebe a notoriedade da evolução cultural comparando seu aprendizado com o seu pai em relação ao de seus descendentes ele se dá conta que não estamos estagnados em doutrinas rígidas.

Enviado por boutique arte angels em 01/12/2009


Excelente história de confiança e carinho!
Exclente o blog mesmo. Nos faz refletir sobre muitas coisas.

Parabéns.

Enviado por Arquivos Deslizantes em 22/06/2009


Parabéns pelo blog!
Um dos melhores na categoria.

Obrigado.

Enviado por Fornecedores e Clientes E-marketplace em 16/12/2008


Os meus parabéns pelo site. Pedro força e obrigado por partilhares connosco a tua vida.
Um abraço de Braga, em Portugal!

Enviado por Mário Relvas em 07/09/2008


Os meus parabéns pelo blog. Pedro um grande abraço, de Braga, Portugal!

Enviado por Mário Relvas em 07/09/2008


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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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