Meu pai levou um susto hoje quando abriu sua caixa de e-mail. Até agora já são quatro mensagens que deixaram ele com um big de um ponto de interrogação na cabeça. Será que é por isso que ele está tomando meu pulso de cinco em cinco minutos?!!
"Essa música é muita linda, pena que a conheci de uma maneira triste com a morte de uma criança, mas ela é mesmo linda." (Aline)
Êpa! De que criança ela está falando? Bom, não deve ser de mim, pois embora seja pequenino e com cara de menino, nasci em 1982... A única coisa certa é que sou lindo sim.
"Música emocionante...pena que conheci ela no momento tão triste, com a morte do garotinho Pedrinho" (Wesley)
Nossa! Será que esse Pedrinho sou eu?!! Não deve ser... deixa eu beliscar... AI! Não, não sou eu.
"Oi! Pedrinho vi seu caso na Sonia Abrão, a verdade é que chorei muito, descanse em paz, e a música já parece com você... A verdade vai aparecer e Deus vai confortar o coração do seu pai!" (Ivonete)
Descanse em paz?! Gente, o que eu mais faço é descansar e se tem um coração que está sempre confortado é o de meu pai, que conhece Jesus (agora ele resolveu falar mais dele no blog "O evangelho em 3 minutos")
"Esta música fala tudo sobre o que é ser uma criança, e muitas têm suas vidas interrompidas. Pedrinho que Deus lhe abençoe, cante com os anjos." (Consuelo)
Ô loco! Cantar com os anjos? É uma banda? O que é isso, minha gente! Eu não morri não! Estou vivinho da silva aqui ao lado de meu pai que já está até me olhando com um olhar estranho.
Se você viu o programa que esse pessoal falou ou souber que história é essa, por favor avise meu pai. Vai que ele acaba acreditando nessa história e resolva chamar a funerária...
PS. Meu pai descobriu depois que essas pessoas viram na TV o caso da morte de um menino chamado Pedrinho e um vídeo dele com a música "Quando I Bambini Fanno oh!". Devem ter procurado pela música e acharam meu blog pensando que o mesmo Pedrinho.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras. O livro é
publicado pela Editora Mondrian.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.