Não sei o que meu pai faria sem mim. Agora inventou mais uma: me contratou para personal coach. Chique, né?
De vez em quando ele costuma fazer caminhada. Bem, vamos ser honestos: de vez em nunca. A caminhada dele é igual ao regime, sempre promete começar na próxima semana. Agora que a prefeitura construiu um local para caminhadas, ele já ficou sem uma de suas desculpas.
O lugar é bacana, é uma espécie de parque. Já ouviu falar do Central Park de Nova Iorque? Pois é, não tem nada a ver. Deu para imaginar? Então é isso mesmo, o parque é pequenininho e a maior dificuldade para quem caminha lá é que os caminhos não são muito longos e você acaba sempre reencontrando aquela pessoa que cumprimentou há três minutos. Aí fica aquele negócio de olhar para o chão, o céu, conferir se tem alguma chamada no celular. Tem até gente que olha o relógio para disfarçar e percebe que nem relógio tem.
Há também as pessoas que você encontra lá uma vez só e nunca mais vai encontrar. São as mais produzidas, geralmente senhoras na terceira ou quarta idade que tomaram um banho de butique antes da caminhada. Tudo é novo: a roupa, o tênis, o cabelo. O resto é igual. Sabe aquele tênis que ainda está com a etiqueta? Isso mesmo, é de gente que vai caminhar só uma vez e guardar. Tá cheio de gente que faz isso, não só com o tênis, mas também com a bicicleta, a raquete de tênis, a esteira e aqueles duzentos tipos de aparelhos que são vendidos nos intervalos da TV.
Mas o que tudo isso tem a ver com meu novo trabalho de personal coach? É que meu pai descobriu que me levando passear lá ele pode ficar menos tempo caminhando. É que não é a mesma coisa caminhar sozinho e caminhar empurrando uma cadeira de rodas como se fosse um taxista de riquixá que empurra em lugar de puxar. Precisa só ver o quanto ele suou. Eu não senti nada.
Fica aí a idéia. Se você conhece algum portador de deficiência, inclua essa pessoa em seus exercícios. Você vai matar dois coelhos com uma cajadada: vai perder uns quilinhos e ao mesmo tempo levar para passear alguém que às vezes tem poucas oportunidades de sair de casa. Só um conselho: encha os pneus da cadeira se não quiser esvaziar os da barriga muito depressa.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras. O livro é
publicado pela Editora Mondrian.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.