Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Uma palavra só" - "Esqueceram de mim... sempre!"

08/06/2007
Doutor em meleca

Por duas vezes meu pai viu um mesmo médico no programa da Ophra. Sua especialidade? Bem, é melhor não comer enquanto lê minha mensagem de hoje ou você pode se sentir mal.
razz

Bem, aquele médico é especialista em cocô. Isso mesmo, cocô, aquilo que todo mundo gosta de fazer mas tem vergonha de comentar. O que ele explica é que boa parte do que acontece em nosso corpo pode ser entendido examinando o cocô, sua forma, seu cheiro, sua consistência...

É por isso que fazemos exame de fezes; elas revelam os segredos de nossa saúde ou da falta dela. Os médicos sabem ler os resultados e receitar o melhor tratamento para nosso corpo. Se o seu corpo fosse um computador, as fezes seriam sua impressora.

Mas qual a razão de falar disso justo agora? É porque eu também me considero doutor em outra área: Doutor em meleca. Isso mesmo, todos nós precisamos lidar com as melecas, mas pouca gente tem coragem de falar do assunto. Eu tenho.

Não espere que vá ensinar você a fazer bolinhas, não é disso que estou falando. Quero passar informação útil, porque sofri muito com o problema. Eu demorei para aprender a assoar o nariz, um problema que acontece com muita gente com deficiências de algum tipo. Então antes que eu aprendesse a lidar com minha meleca, minha família precisou aprender a lidar com a meleca alheia. O que vou dizer aqui pode aliviar o sofrimento de alguém.

Enquanto era pequeninho, o que ajudou muito nas épocas de gripes e resfriados foi uma bombinha, uma espécie de bisnaga que você pode comprar na farmácia e serve para tirar meleca do nariz de bebê. Deve ter algum nome mais bonito como "Extrator de fluídos nasais" ou algo assim, mas o que faz é tirar meleca líqüida.

E quando já não está mais líquida? Aí minha família aprendeu outro truque, porque chegava uma hora em que a bombinha não conseguia puxar o mingau. Então alguém ensinou que a meleca do segundo estágio é extremamente resistente à tração e basta você pegar a pontinha dela (não se preocupe, um pouquinho vai escorrer) e grudar em um roletinho de papel higiênico.

Isso mesmo, faça um roletinho de papel pouco mais grosso que um lápis e vá enrolando a meleca. Você irá se surpreender com o que acontece. Parece que ela é puxada de dentro do cérebro (sim, meu pai experimentou a sensação nele também) e vai saindo, saindo, saindo... É meio parecido com enrolar espaguete no garfo, mas acho que fica mal falar de comida agora.

E depois que seca de vez? Bem, aí o melhor é jogar água no rosto para que um pouquinho entre, umedeça a meleca, e faça ela passar do terceiro estágio para o segundo estágio. Meleca hidratada, é disso que você precisa.

Finalmente eu aprendi a assoar o nariz e já não preciso mais de bombinha ou de roletinho de papel, mas toda manhã alguém precisa lavar meu rosto com bastante água para eu ser capaz de assooar a bela adormecida. Quero dizer, a meleca adormecida.

S.O.S.: Cuidados Emergenciais
RENATO L. BARBIERI

Mais de 250 cuidados emergenciais, inclusive choque, queimaduras, trauma, emergências pediátricas, emergências psiquiátricas, overdose e envenenamento. Cada tópico fornece a descrição da emergência, os achados no histórico, sinais e sintomas, bem como as prioridades no cuidado imediato, além de instrumentos para avaliação, ilustrações, quadros e muito mais. Inclui também considerações legais, procedimentos de emergências passo-a-passo, como avaliar e diferenciar as queixas dos pacientes, avaliação pediátrica com diferenças anatômicas e parto de emergência.

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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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