Por duas vezes meu pai viu um mesmo médico no programa da Ophra. Sua especialidade? Bem, é melhor não comer enquanto lê minha mensagem de hoje ou você pode se sentir mal.
Bem, aquele médico é especialista em cocô. Isso mesmo, cocô, aquilo que todo mundo gosta de fazer mas tem vergonha de comentar. O que ele explica é que boa parte do que acontece em nosso corpo pode ser entendido examinando o cocô, sua forma, seu cheiro, sua consistência...
É por isso que fazemos exame de fezes; elas revelam os segredos de nossa saúde ou da falta dela. Os médicos sabem ler os resultados e receitar o melhor tratamento para nosso corpo. Se o seu corpo fosse um computador, as fezes seriam sua impressora.
Mas qual a razão de falar disso justo agora? É porque eu também me considero doutor em outra área: Doutor em meleca. Isso mesmo, todos nós precisamos lidar com as melecas, mas pouca gente tem coragem de falar do assunto. Eu tenho.
Não espere que vá ensinar você a fazer bolinhas, não é disso que estou falando. Quero passar informação útil, porque sofri muito com o problema. Eu demorei para aprender a assoar o nariz, um problema que acontece com muita gente com deficiências de algum tipo. Então antes que eu aprendesse a lidar com minha meleca, minha família precisou aprender a lidar com a meleca alheia. O que vou dizer aqui pode aliviar o sofrimento de alguém.
Enquanto era pequeninho, o que ajudou muito nas épocas de gripes e resfriados foi uma bombinha, uma espécie de bisnaga que você pode comprar na farmácia e serve para tirar meleca do nariz de bebê. Deve ter algum nome mais bonito como "Extrator de fluídos nasais" ou algo assim, mas o que faz é tirar meleca líqüida.
E quando já não está mais líquida? Aí minha família aprendeu outro truque, porque chegava uma hora em que a bombinha não conseguia puxar o mingau. Então alguém ensinou que a meleca do segundo estágio é extremamente resistente à tração e basta você pegar a pontinha dela (não se preocupe, um pouquinho vai escorrer) e grudar em um roletinho de papel higiênico.
Isso mesmo, faça um roletinho de papel pouco mais grosso que um lápis e vá enrolando a meleca. Você irá se surpreender com o que acontece. Parece que ela é puxada de dentro do cérebro (sim, meu pai experimentou a sensação nele também) e vai saindo, saindo, saindo... É meio parecido com enrolar espaguete no garfo, mas acho que fica mal falar de comida agora.
E depois que seca de vez? Bem, aí o melhor é jogar água no rosto para que um pouquinho entre, umedeça a meleca, e faça ela passar do terceiro estágio para o segundo estágio. Meleca hidratada, é disso que você precisa.
Finalmente eu aprendi a assoar o nariz e já não preciso mais de bombinha ou de roletinho de papel, mas toda manhã alguém precisa lavar meu rosto com bastante água para eu ser capaz de assooar a bela adormecida. Quero dizer, a meleca adormecida.
S.O.S.: Cuidados Emergenciais RENATO L. BARBIERI Mais de 250 cuidados emergenciais, inclusive choque, queimaduras, trauma, emergências pediátricas, emergências psiquiátricas, overdose e envenenamento. Cada tópico fornece a descrição da emergência, os achados no histórico, sinais e sintomas, bem como as prioridades no cuidado imediato, além de instrumentos para avaliação, ilustrações, quadros e muito mais. Inclui também considerações legais, procedimentos de emergências passo-a-passo, como avaliar e diferenciar as queixas dos pacientes, avaliação pediátrica com diferenças anatômicas e parto de emergência.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.