Minha nova babá está se acostumando com meu modo de ser. Sim, tenho uma nova babá e ela é bem legal. Cuida bem de mim, até bem demais. E foi este o problema no início.
É que quando alguém quer ajudar um portador de deficiências geralmente quer fazer tudo, mas não é assim. Eu tenho algumas deficiências, mas há coisas que eu consigo fazer sozinho. Só que, como sou malandro, se percebo que alguém vai fazer por mim, então faço corpo mole.
Por exemplo, se eu estiver de pé segurando na barrinha na parede do banheiro para me sentar no vaso e percebo que alguém quer me segurar pelas axilas, amoleço as pernas, solto o corpo e me deixo levar. Pior para meus ossos, que exigem algum exercício para escapar da osteoporose.
Mas minha babá no começo tentava fazer tudo por mim, me carregando do vaso para a cadeira de banho e de volta para o vaso na hora de enxugar. Meu pai mostrou que ela deve deixar eu descer do vaso sozinho, engatinhar até a barrinha que ele colocou na parede do box, ficar de pé e sentar na cadeira de banho. Tudo sozinho. Na volta também.
Hoje eu faço tudo isso: vou ao banheiro engatinhando, como de colheradas em prato fundo sozinho na mesa e até sei segurar um copo e tomar suco ou água. O copo é sempre de plástico por motivos óbvios. Só não aprendi a dirigir ainda, mas quando aprender acho que vou dirigir melhor do que muita gente por aí...
Portanto, se você conhecer alguém portador de deficiências, não vá querer fazer tudo para essa pessoa ou ela não vai aprender nunca coisas novas. Deixe que sofra um pouquinho -- eu disse um pouquinho! -- para aprender novas atividades. Crie desafios e prêmios a cada etapa vencida.
E não fique por aí fazendo aquela cara de dó e de catástrofe sempre que encontrar um portador de deficiências, porque ninguém quer lançar a pessoa num fosso de auto-piedade. Aí não há quem a tire de lá.
Também não trate portadores de uma deficiência como se fossem deficientes em tudo. Sabe como é, que nem gente que grita para falar com alguém que sofreu um derrame, como se a pessoa fosse surda. Ou fala com vocabulário de criança para um adulto encadeirado por problema nas pernas, como se a deficiência no andar influenciasse sua capacidade de pensar.
Todos são deficientes em alguma área. Você consegue tocar a Nona Sinfonia de Beethoven? Não?! Então você é deficiente nisso. Outros não conseguem ler porque não foram alfabetizados. Deficientes. Outros não conseguem se relacionar com pessoas. Deficientes. E por aí vai...
Eu sei, é difícil se acostumar, a reação natural é sentir pena, é querer fazer tudo pelo portador de deficiência. Não faça isso. No começo dói, tanto em quem faz como em quem observa, mas é assim que se aprende na vida. A vida só é dura para quem é mole.
Caminhos da Adoção CLAUDIA FONSECA A autora questiona a idéia de que a família seja uma instituição descartável. Em seu estudo feito com crianças de classes populares, ela chama a atenção para um tipo de familia que consolida seus laços consanguineos, apesar da dissolução dos laços conjugais.
Olá Pedro, Vejo que você é um rapaz muito abençoado, pois o papai do céu te presenteou com um papai muito bom aqui nesta terra,amei este texto sobre Ajude sem ajudar, seu papai tem razão a vida só é dura pra quem é mole, tenho indicado seu site para algumas pessoas amigas, pois percebo que tem muita gente saudável reclamando da vida e em minhas opinião estas são as verdadeiras deficientes. Bom vou terminar por aqui deixando um beijão pra você e um abraço bem carinhoso no seu pai.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.