Meu pai tem cada uma. Sabe qual a última? Está procurando uma tecla SAP em mim. Não é "sapo" não, é SAP, "Second Audio Program", dessas que tem nos televisores mais maneiros para você ouvir o som original do filme ou qualquer outra coisa que a emissora quiser colocar lá.
Na verdade o que ele está procurando é uma linguagem alternativa para mim, já que me recuso a falar o português normal. Quando eu era pequeno me levaram em médicos especializados e todos eles disseram que era impossível eu falar. A fonoaudióloga dizia que minha falta de coordenação motora era muito severa e que articular palavras é uma das tarefas que mais exige do cérebro.
Fui levado também a um neurologista -- um entre muitos -- que me ligou em um montão de fios e concluiu que eu era surdo. Aí foi uma discussão com meu pai, porque o médico dizia que eu não escutava por ter algum nozinho no nervo que vai do ouvido ao cérebro. Meu pai afirmava que eu era capaz de escutar, porque até quando alguém abria uma torneira longe e eu estava com sede eu logo fazia "Ah! Ah! Ah!" para pedir água.
E eu já estava quase pedindo água no meio daquela discussão quando o médico achou melhor concluir que provavelmente eu escutasse, só que em outra faixa de freqüência de som. Tipo cachorro ou morcego, acho que ele quis dizer. Ou então concordou só para receber a consulta, porque meu pai sabe ser teimoso quando quer.
Esta semana meu pai viu uma comédia -- "Entrando numa fria maior ainda" -- onde o Robert De Niro fica ensinando uma linguagem de sinais para um bebê que ainda não sabe falar. Aí deu aquele estalo -- eu até arrepio quando dá um estalo no meu pai -- achando que eu poderia falar.
Hoje acordei normal e na hora da banana amassada com aveia meu pai queria que eu falasse "ba-na-na" para ganhar cada colherada. Quando a banana já estava ficando preta de tanto esperar ele resolveu simplificar e passou a exigir apenas "a-na" para ganhar "ba-na-na".
Eu fazia um sonzinho a cada colherada só para ele ficar contente e, como ele é meio surdo, era capaz de jurar que me ouviu dizer "a-na" algumas vezes. Na hora da água ficou mais fácil: pediu para eu falar apenas "a", coisa que já faço há anos.
A teoria dele é que, se eu entendo conversas -- e eu entendo conversas -- sou capaz de falar. Como fazer língua, lábios, queixo e respiração funcionarem como uma orquestra é para mim tão complicado quanto dar banho em gato, ele decidiu que vai prestar atenção nos sons que emito e criar um vocabulário próprio.
Nada de novo até aí, mesmo porque qualquer adolescente já conversa nos chat com uma linguagem que é a versão cibernética dos sinais de fumaça. Além disso eu até costumo levar um papo com minha irmã que mora nos EUA quando ela chama meu pai no Skype. Eu ouço a voz dela lá da sala e venho engatinhando até minha poltrona ao lado do computador para ouvir a conversa. Ai se meu pai desliga sem deixar eu bater papo com ela no final. Na despedida ela sempre fala comigo como se fosse boba:
Eu faço o jogo dela só para deixá-la contente e fico repetindo essas coisinhas sem sentido, mas rio à beça com nosso chat. Mas, voltando à linguagem simplificada que meu pai está criando para concorrer ao próximo Prêmio Nobel de criatividade, o dicionário dele só tem três palavras até agora, que são as que ele conseguiu associar aos sons que já faço. Então "ana" vai ser "banana", "a" vai ser "água" e "ate" vai ser "chocolate".
Posso dizer uma coisa? Já passei pela lição da "ana" e da "a". Não vejo a hora de começarmos com a lição do "ate".
Em tempo...
Veja que loucura as estatísticas de visitas de meu blog este mês. Alguns blogs descobriram o vídeo "O pai mais forte do mundo" e um montão de gente correu aqui para assistir. Até agora 36 pessoas já deixaram comentários lá.
A Linguagem dos Pés: a Posição e a Forma Revelam Sua Personalidade IMRE SOMOGYI Trabalho pioneiro do pesquisador holandês Imre Somogyi, mostra como a posição e a forma dos dedos dos pés revelam traços da personalidade, identificam como cada pessoa lida com suas emoções e quais as tendências de comportamento. Somogyi analisa 17 casos ilustrados, dando uma original contribuição aos diagnósticos alternativos que se baseiam na constatação de que a parte contém o todo.
Jornalista e produtor de televisão, interessou-se pela cura natural. Entre outras terapias, estudou homeopatia, a cura pelas ervas e massagem de polaridade. Durante todo esse tempo ele desenvolveu a teoria de que os dedos dos pés são verdadeiros espelhos, e que a forma e a posição dos dedos dos seus pés mostram quem você é.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras. O livro é
publicado pela Editora Mondrian.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.