Você se lembra do Din-Don que meu pai comprou para saber se decidi ir ao banheiro sozinho de manhã? Pois é, funcionou. Funcionou tanto que ele precisou até desligar. É que eu, muito sapeca, acordei no meio da noite e fiquei me mexendo na frente do Din-Don só para ouvir ele tocar.
Imagina a alegria de meu pai quando descobriu, em plena madrugada, minha queda para a música, ainda que sejam apenas duas notas: Din-Don . Para evitar ser acordado no meio da noite por um rapazinho que não tem mais nada para fazer, decidiu desligar o negócio até encontrar um jeito melhor de me vigiar. E se depender do que aprontei hoje, ele vai encontrar logo.
Eu conto. Você gostava de brincar de barro quando era criança? Eu também. Tem muito marmanjo por aí que gostava tanto de brincar de barro que agora anda de Jeep em trilhas lamacentas só para se divertir. Posso confessar a você? É este também o meu hobby secreto, mas só pratico em sonho.
O problema é que esta noite sonhei que pilotando no barro e quando me dei conta já estava sentadinho na privada. Nem sei ao certo como fui parar lá, acho que foi sonhando. O engraçado é que meu pai deve ter poderes extra-sensoriais, porque eu não contei nada a ele e mesmo assim ele descobriu meu sonho!
Será que ele deduziu quando viu minha fralda no chão? É verdade, tive uma certa dificuldade para tirá-la e acho até que escorreguei e caí sentado antes de vagar um pouco pelo banheiro e voltar à privada. Engraçado, a sensação era parecida à de meu sonho, enquanto dirigia meu Land-Rover fora-de-estrada por um lamaçal, escorregando aqui, patinando ali, enlameado e lambuzado até os cabelos.
Para atravessar meu sonho precisei de tração nas quatro rodas e muita habilidade. No meu sonho, meu fora-de-estrada deixava marcas de pneu por todo o caminho. Acho até que forcei o motor, porque estou sentindo um cheirinho estranho pela casa. Deve ser embreagem queimada.
Foto de meus sonhos.
Será que esse pessoal jipeiro por aí tem a mesma sensação que senti? Deixa pra lá... Apesar do frio da manhã, hoje meu pai me deu um banho de lavar até a alma, não entendi bem o porquê. Esfregou-me umas dez vezes com um sabonete super cheiroso chamado Phebo, e até me senti mais leve. Mas não sei se foi exatamente do banho ou se me sentia mais leve antes mesmo de tomá-lo...
Outra coisa estranha foi a dona Júlia lavar o banheiro outra vez. Ela já não tinha lavado na segunda-feira? Coisas estranhas começam a acontecer por aqui. Ouvi meu pai dizendo a ela que o Din-Don não deu certo e que ele vai comprar um negócio com câmeras sem fio para poder me vigiar em casa ou até mesmo quando estiver viajando. Como fica a minha privacidade?!
Cena do filme "1984" baseado no livro de George Orwell.
Será que ele está querendo criar algum tipo de reality show ou será que não está batendo bem da cabeça? Se olhar ali em baixo, na seção "Livros Especiais", o que passou a ser objeto de desejo para ele, vai concordar comigo que ele anda meio esquisito...
Babá Eletrônica Mobicam com Video Colorida 70001-04 MOBICAM Design compacto. Monitor colorido LCD 1,5". 7 Níveis de controle de brilho. Câmera com microfone. Opção de visão no escuro que permite ver até 3,5 metros no escuro total. Opção de ativação por voz com sensibilidade ajustável. Freqüência de 2.4GHz que passa por paredes, pisos e chega a 100 metros. Entradas AV (áudio/vídeo) - Mini-RCA ou Mini-Scart para conectar em TV ou videocassete. Suporte para parede. Dois transformadores 9v DC, 300mA para câmera / 6V DC, 600mA para o monitor. Opção para pilhas AA. Manual em português.
Mario, os seus textos surtem efeito. Se surtem... eu, por exemplo, surtei!
Li e reli, buscando no seu texto a paciência e a serenidade esquecidas na hora da pressa, do apuro, quando me tiram do sério ou do foco, quando me desviam daquilo que eu estava fazendo. Lia e relia, e me perguntava como é que se pode permitir que coisas simples assumam proporções tão grandes, às vezes?
É, parece que o segredo é fazer o contrário. Fazer do grande problema ou contratempo, uma coisa simples e - como todo o resto - passageira.
Como é mesmo que vc consegue? Com certeza, Pedro tem sido um excelente professor; tem ensinado muito a vc, e de lambuja, a todos nós...
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.