Sabe quem veio me visitar? Uma amiguinha canadense. Isso mesmo. A andorinha que você vê na foto entrou pela janela do meu quarto e não conseguia mais sair. Tão esperta, tão liberta, no entanto... Se não fosse meu pai para ajudá-la, ela teria ficado se debatendo contra o vidro o dia inteiro sem encontrar seu caminho para o céu azul onde suas companheirinhas a esperavam.
Todos os anos estas andorinhas descem do Canadá como imensas nuvens e vêm passar férias em minha cidade. À noite árvores, fios e antenas ficam repletos destes pequenos pássaros e, pela manhã, sua revoada partindo em busca de comida é um espetáculo muito bonito. Elas voam juntas como se fossem uma coisa só. Menos essa.
O vidro é transparente, mas nada passa por ele. É por isso que ela está tão confusa, tão desesperada, tão incapacitada. Sabe o que acho? Que a andorinha é como muita gente. Tem gente que olha para mim e pensa: "Coitado, está incapacitado...". Por não poder enxergar, andar, falar ou até mesmo pensar pensamentos complexos, sou incapaz de uma porção de coisas.
Mas sabe o que eu acho? Que todo mundo é incapaz de alguma coisa. Ou de muitas coisas. A diferença é que, como acontece com o vidro, muitas incapacidades são transparentes e não ficam tão evidentes quanto um membro aleijado ou dois olhos apagados.
Manias, por exemplo. Já viu quanta gente fica travada por causa de manias? E as superstições! É um tal de não fazer isso porque não presta, não vestir tal roupa porque dá azar, não entrar por tal lugar porque atrai maus agouros... A lista não acaba nunca. Eu não tenho esse problema.
Tudo bem que sou metódico em um montão de coisas, mas acho que isto também é característico de pessoas como eu. Deve ser algum tipo de autismo, porque depois que aprendo a fazer uma coisa de um jeito, faço sempre do mesmo jeito, como um programinha de computador que não tem variantes. Fazer o quê, né?
Mas isso não é mania, é simplesmente um tiltizinho que acontece no meu cérebro. E quem não tem esse tilt, por que será que fica se debatendo contra o vidro das manias, esquisitices e superstições? Meu pai precisou libertar a andorinha, ou ela não seria capaz. Você tem um Pai para libertar você?
"Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome." (João 1:12)
Pés Como os da Corça nos Lugares Altos HANNAH HURNARD Uma alegoria da jornada dos filhos de Deus que desejam viver nos Lugares Altos - Hannah Hurnard. Esta obra vai levá-lo a transpor os perigos da vida e a erguer-se aos lugares altos do amor, alegria e vitória.
À semelhança do clássico O Peregrino, este livro é uma história que caracteriza o andar cristão de fé descrito na Bíblia. Os personagens fazem sua jornada rumo aos lugares elevados onde suas fraquezas serão transformadas em forças e seus receios em fé. O Pastor que os guia tem uma terna voz de amor e esperança. Antagonistas vão surgindo pelo caminho, testando cada personagem durante a jornada.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.