Meu pai voltava de São Paulo escutando a Rádio Antena 1 quando tocou uma música italiana. Ele ficou tão encantado que não tirou mais a música da cabeça. Depois que chegou em casa ficou procurando na Internet, e nada. O jeito foi mandar um e-mail para a rádio.
Aviso aos navegantes: Nos comentários lá no fim da página tem um montão de gente escrevendo como se eu tivesse morrido. Meu pai descobriu que elas viram na TV o caso da morte de um menino chamado Pedrinho e mostraram um vídeo dele com a música "Quando I Bambini Fanno oh!". Devem ter procurado pela música e acharam meu blog pensando que o mesmo Pedrinho.
Diferente do que acontece com muitos sites de empresas, a Rádio Antena 1 respondeu na hora. O nome da música era "Quando I Bambini Fanno Oh!", de Giuseppe Povia. Meu pai achou a música e a letra lindas. Mas, cá entre nós, meu pai entende tanto de italiano quanto eu de japonês.
Talvez, por não entender direito o que o cantor dizia, a letra ficou ainda mais bonita porque ele entendeu o que quis entender. Quando isso acontece, quem canta é o coração e quem compõe é a emoção. Mas ele sabia que a letra falava de crianças e de uma expressão delas na Itália: "Oh!"
Depois de procurar muito, meu pai encontrou até um comentário de uma brasileira que mora na Itália, explicando a expressão:
"Para as pessoas que conhecem o idioma italiano, aquele vivo, das expressões idiomáticas, sabe ao que me refiro. As crianças aqui, quando se espantam com alguma coisa, quando algo as surpreende dizem um lindo e sincero OH!!!!, na música também fala do costume dos adultos e das suas complicações... Porque perdemos o encanto das coisas, das pequenas coisas? Sei que não dá pra crer em Papai Noel pra sempre, mas poderíamos pelo menos não perder o encanto infantil. E tem pessoas que não o perdem, poderia escrever aqui o nome de meia dúzia delas, que a idade não tira o encanto das pequenas coisas, a alegria por tudo e por nada." Anaí Silva Tobias, blog "Da havaianas para a bota".
A letra eu vou colocar logo abaixo, ao lado de uma tradução que meu pai achou no site do Kinder Ovo. Ele queria comprar o CD mas ainda não achou no Brasil. Oh! Pelo jeito o Giuseppe Povia não era muito conhecido por aqui antes da propaganda do Kinder Ovo, para a qual ele gravou a versão exclusiva em português (pode ser que ainda toque quando você entra no site do Kinder Ovo, mas também há uma versão no YouTube). A original, italiana, ele achou em um site que toca a música em MP3, além do vídeoclipe no YouTube. O problema é que não agüento mais. Ele fica tocando o dia inteiro. Acho que é hora do bambino aqui dizer um alto e sonoro: "Oh!
"Quando I Bambini Fanno Oh!" - Giuseppe Povia
Quando i bambini fanno oh c'è un topolino mentre i bambini fanno oh c'è un cagnolino se c'è una cosa che ora sò ma che mai più io rivedrò è un lupo nero che da un bacino a un agnellino
Tutti i bambini fanno oh dammi la mano perchè mi lasci solo sai che da soli non si può senza qualcuno, nessuno può diventare un uomo per una bambola o un robot magari litigano un pò ma col ditino ad alta voce almeno loro, eh, fanno la pace così ogni cosa nuova è una sorpresa proprio quando piove i bambini fanno oh guarda la pioggia
Quando i bambini fanno oh che meraviglia, che meraviglia ma che scemo vedi però però e mi vergogno un pò perchè non sò più fare oooooooh e fare tutto come mi piglia perchè i bambini non hanno peli ne sulla pancia,ne sulla lingua
I bambini sono molto indiscreti, ma hanno tanti segreti come i poeti i bambini volan la fantasia e anche qualche bugia o mamma mia.bada ma ogni cosa è chiara e trasparente che quando un grande piange i bambini fanno oh ti sei fatto la bua è colpa tua
Quando i bambini fanno oh che meraviglia, che meraviglia ma che scemo vedi però però e mi vergogno un pò perchè non sò più fare oh non sò più andare sull'altalena di un fil di lana non sò più fare una collana
lalalalalalala
Fin che i cretini fanno Fin che i cretini fanno Fin che i cretini fanno BOH tutto resta uguale
Ma se i bambini fanno ohh basta la vocale io mi vergogno un pò invece i grandi fanno NO io chiedo asilo, io chiedo asilo come i leoni io voglio andare a gattoni e ognuno è perfetto uguale il colore
evviva i pazzi che hanno capito cosa è l'amore è tutto un fumetto di strane parole che io non ho letto voglio tornare a fare oh perchè i bambini non hanno peli ne sulla pancia ne sulla lingua
Quando as crianças fazem Uau! tem um ratinho quando as Uau! tem um cachorrinho tem uma coisa que eu sei que nunca mais irei rever é um lobo mau que dá um beijinho num carneirinho
E as crianças fazem Ei! me dá a mão, porque me deixa só sem ajuda de ninguém sem qualquer um ninguém pode virar um homem uma boneca ou robô talvez, talvez brinquei um pouco mas com um dedinho em alta voz ao menos eles, é?, fazem as pazes e cada coisa nova é uma surpresa até quando chove as crianças fazem Uau!, olha que chuva
Quando as crianças fazem Uau! que maravilha, que maravilha, mas que bobo, veja só, olha só, eu me envergonho um pouco, já não sei mais fazer Uau! e fazer tudo como eu quero porque crianças falam sempre falam tudo, tudo que pensam
As crianças são muito sinceras, mas têm tantos segredos, como poetas e as crianças se ocupam com fantasias e com poucas mentiras oh mama mia.bada e mas tudo é claro e transparente quando um adulto chora as crianças fazem Ei! você fez um dodói, a culpa é tua,
Quando as crianças fazem Uau! que maravilha, que maravilha, mas que bobo, veja só, olha só, e me envergonho um pouco, já não sei mais fazer "Uau!" não brinco mais numa gangorra, não tenho a chave que abre a porta dos nossos sonhos
lalalalalalala
Enquanto os chatos fazem Enquanto os chatos fazem Enquanto os chatos fazem BÔ tudo fica igual
Mas se as crianças fazem Uau! ei, basta uma vogal, eu me envergonho um pouco e os adultos fazem NÃO eu peço abrigo, eu peço abrigo, como os leões, eu quero andar engatinhando cada um é perfeito e iguais na cor
e viva os loucos que perceberam e que o amor é tudo uma história e tem as palavras que eu não entendo quero voltar a fazer Uau! quero voltar a fazer Uau! porque as crianças, falam sempre falam tudo, tudo o que pensam.
Educação Inclusiva PETER MITTLER Este livro apresenta uma visão abrangente e reflexiva a respeito da importância, urgência e desafios atuais para a implementação de políticas educacionais inclusivas, as quais efetivamente contribuam para o fim da pobreza e da exclusão social, por meio de uma educação qualificada para todos.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.