Às vezes não sei o que minha família faria sem mim. É que sempre fui tão importante para a vida e carreira de cada um em casa, que fico preocupadíssimo com essa dependência que todos têm desta humilde pessoa que sou...
Eu já contei aqui que ajudei minha família a enxergar um montão de coisas da vida que não teriam enxergado se eu não tivesse entrado para a família. Também já contei que se meu irmão é hoje forte e resistente a gripes e resfriados foi por causa do treinamento que dei a ele, roubando seu cobertor à noite enquanto ele dormia.
Meu pai, então, não teria nada de importante para fazer se não existisse este blog, onde ele pode se exercitar e, quem sabe, um dia virar escritor. Esta semana ele riu muito com uma piada de escritor. Diz que o sujeito contou para o outro que tinha deixado o emprego para viver só do livro que escreveu.
-- Que bom que está vivendo só de escrever. Está vendendo muito? -- perguntou o amigo interessado. -- Estou vendendo tudo: casa, carro, geladeira, bicicleta...
Também já contei que fui eu quem deu à minha irmão a experiência de vida que ela precisava para escrever um livro, "Uma luta pela vida", escolhido entre mais de quinhentas obras para receber um prêmio de literatura.
Além disso fui eu quem a inspirou a estudar enfermagem e permiti que me usasse de cobaia durante muitos anos, deixando que cuidasse de mim, desse banhos, experimentasse diferentes cardápios, cremes para a pele etc. Agora acabo de arrumar um emprego para minha irmã.
Isso mesmo, lá nos Estados Unidos, onde ela mora. Oras, se não fosse por mim, como é que ela teria conseguido ser contratada para trabalhar no Matheny Medical and Educational Center? Vai lá, dê uma olhadinha que lugar maneiro esse onde ela começou a trabalhar: http://www.matheny.org/
Pois ela começou esta semana com os treinamentos e já deve arregaçar as mangas nos próximos dias, para cuidar de pessoas como eu. Espero que ela tenha aprendido direitinho tudo o que eu ensinei. Sabe o que ela teria conseguido sem mim?
Deficiência: Alternativas de Intervenção ELISABETH BECKER Este livro traduz a experiencia e a acao de um grupo de docentes pesquisadores da USP no trabalho com pessoas que desde o seu nascimento ou por algum acidente apresentam lesões ou alterações estruturais que lhe trazem prejuízos ao seu desenvolvimento. Este livro é uma compilação dos trabalhos e performances apresentadas por ocasião do II Encontro Bienal da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, realizado em São Paulo, em 1994. Este encontro multidisciplinar propôs uma reflexão sobre a relação corpo-mente, a partir de uma série de contribuições inseridas em cinco corpus: o histórico, o estético, o científico, o filosófico e o psicanalítico. Textos de André Green, Antonio Medina Rodrigues, Francisco Benjamin de Souza Netto, Nachman Falbel, Carlos Kajiya, Vivaldo Costa Lima, Marilena Chauí, Luis Cláudio Figueiredo, Mario Cohen, Ignácio Gerber, Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, Lenora de Barros, Arnaldo Antunes, Haroldo de Camopos, Myrna Pia Favilli, Sônia Salzstein, H.J. Koellreutter, Leymert Garcia dos Santos, Lucia Seixas Prado, Lino de Macedo, Paulo Duarte Guimarães Filho, Cláudia T. G. de Lemos, F.G. Graeff, Renato Mezan, Lepold Nosek, Manoel Lauriano Salgado de Castro, Luis Carlos Menezes, Manoel Tosta Berlinck, Yusaku Soussumi, Ana Maria Andrade de Azevedo, Jansy Berndt de Souza Mello, José Américo Junqueira de Mattos, Marcio Giovannetti, Maria Cecília Andreucci Pereira Gomes.
Parabéns Pedro!!! Deus te deu o melhor presente que um ser humano deve desejar: uma família bem estruturada emocionalmente, liberta de preconceitos e com uma prática cristã. Seria muito bom se pudéssemos formar numerosas familias como essa que te adotou! seus pais adotivos são iluminados Que Deus continue abençoando vocês!
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras. O livro é
publicado pela Editora Mondrian.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.