Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"Tá ocupadooooo!!!" - "Super-Mulher"

14/03/2006
Bandeiras da Paz

Sabia que meu pai já foi bicho grilo? Pois é, ele já cantou em festival, já morou no mato e até já fez música. A mais bonitinha ele fez em 1978, antes de ir morar em Alto Paraíso, Goiás, criar galinhas, cabras e carrapatos.
cool eh?

Esta semana ele pegou o violão e, com meu irmão ao piano, sem ensaio e completamente desafinados, tiraram "Bandeiras da Paz" do fundo do baú. Vai dar até para você assistir, porque foi filmado com máquina fotográfica digital. Aquele todo agitado que você vê no fundo sou eu na direção. Eles não teriam feito coisa alguma sem um bom maestro. A letra está logo abaixo, para você cantar junto.


...ou clique aqui com o botão direito do mouse e escolha "salvar link" para ver no Windows Media Player. Não tem banda larga? Mesmo assim você pode apenas ouvir a música clicando aqui.

Bandeiras da Paz
letra e música de Mario Persona
algum dia em 1978


Um cheiro de relva no ar,
Sem ódio, sem medo de amar,
Criança descalça, florzinha na mão,
Rostinho tranqüilo, sorri sem parar,

Antes do horizonte, branca casinha,
Verde janela, vermelho gerânio,
Arroz na panela, pão quente no forno,
Vivendo o real num mundo de sonhos,

Enquanto o sol não sumir,
E os bichos não forem dormir,
Plantando o trigo, cosendo a roupa,
Amar o trabalho e o pão dividir,

Chorinho maroto, rosadas carinhas,
Auxílio geral de tudo e de todos,
Deixando pra trás urbanas caretas,
Ser livres como as borboletas,

Buscando o real valor
Em Cristo, nosso Salvador,
Chamando todas as crianças do mundo
De filhos nossos com muito amor

No fio do varal, brancas fraldinhas,
Contrastam no verde da horta regada,
Agitam, tremulam, é o vento que faz,
Parecem bandeiras da paz.

"Tá ocupadooooo!!!" - "Super-Mulher"



 

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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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