Algumas pessoas me escrevem dizendo que conhecem a mim, minha irmã, meu irmã, meu pai, mas ainda não conhecem minha mãe, não a biológica, mas a que me adotou quando eu tinha 4 anos. Ok, então vou apresentá-la a você.
O nome dela é Cristina e eu não seria o que sou se não tivesse sido por ela e por sua dedicação para me tirar do mundinho fechado no qual eu vivia quando cheguei em minha nova família. Ela teimou que iria fazer alguma diferença em minha vida e conseguiu.
A foto abaixo é de 1986, pouco depois de minha chegada ao novo lar, quando ainda tinha pernas de palito. Dá para ver, abaixo do joelho direito, a cicatriz causada pela cordinha que usavam para me amarrar à cama antes de ser adotado. Estou no colo de minha nova mãe ao lado de novo irmão e não sei se meu olho inchado era porque tinha acabado de ser operado de catarata congênita ou porque estava com sono mesmo.
Enquanto meu pai trabalhava fora, era mamãe quem passava o dia me ensinando coisas. Primeiro, ela tirou meu cascão. Isso mesmo, minha mãe anterior não se lembrava de me lavar. Devo ter emagrecido uns dez quilos, só de sujeira. Se acha tarefa simples, experimente dar banho em gato. Era assim, eu entrava em desespero em contato com a água, algo que só conhecia no copo. Depois ela limpou meus dentes. Havia uma capa tão grossa que saía em pedados, com o formato certinho dos dentes!
Aí ela fez eu perder algumas manias, como ficar batendo no queixo o dia todo. Quer mais? O que me diz de mastigar? Não, eu não mastigava. Aos quatro anos eu não sabia e nem podia, porque fora criado só com líquido até então — provavelmente uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar bebida de um copo.
Por causa disso, aos quatro anos minha sensibilidade na boca era a mesma que você tem na garganta. Sabe o que acontece quando você põe o dedo na garganta? Isso acontecia comigo só de colocar qualquer alimento sólido na boca. Bastava um grão de arroz cozido para provocar o vômito.
Sabe como ela me ensinou a comer comida e a mastigar? Com sucrilhos! Isso mesmo. Depois de experimentar mil coisas e limpar mil vômitos, colocou um sucrilho em minha boca e rapidamente apertou meu queixo, para eu mastigar. O barulhinho do sucrilho foi algo tão novo que me esqueci de vomitar. Depois, outro sucrilho, outro apertão no queixo, outro sucrilho, outro apertão...
Quer mais? Ela me ensinou a gatinhar, depois que aprendi a sentar. De tanto viver deitado eu pirava quando alguém me colocava sentado. Devia sentir vertigens. Antes de gatinhar eu aprendi a me mover pelo chão, mas só em chão liso, sentado, com as mãozinhas no chão e empurrando meu próprio corpo. O problema era que só andava para trás e minha vida teria sido um atraso se minha mãe não me ensinasse a gatinhar para frente.
Foram horas e horas me ensinando a ficar de quatro e depois, pacientemente, colocar uma mão na frente da outra, um joelho na frente do outro. Depois de aprender gatinhar, foi a vez dela me ensinar a andar. Eu não ando de verdade, mas ela me ensinou a colocar um pé na frente do outro, a fazer o movimento que é meio instintivo, mas que eu havia perdido. Hoje consigo caminhar em barras paralelas por alguns minutos. Canso, porque minhas pernas são muito tortas por causa da atrofia dos tendões.
Ela também ficava horas me ensinando atividades como por e tirar peças de dentro de uma caixa, para ajudar em minha coordenação motora. Eu até aprendi a comer sozinho, segurando minha colher! O que mais? Hummmm.... Deixe-me ver... Ah! Sim! Tem o cocô. Mamãe me ensinou a fazer cocô sentadinho numa dessas cadeirinhas de criança que tem um pinico. Pensa que foi fácil? Tente vestir cueca em estátua e você pode ter uma idéia do que foi...
Comentários? Deixe os seus no formulário mais abaixo.
O livro mostra como atividades específicas de educação motora podem desenvolver e aprimorar a consciência corporal de crianças portadoras da Síndrome de Down e de Paralisia Cerebral. A experiência da autora revela, também, como a espontaneidade e a individualidade são preservadas e estimuladas com o desenvolvimento da consciência corporal.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.