Você acredita em milagres? Bem, há várias coisas que as pessoas chamam de milagres. Há, por exemplo, o milagre da tecnologia, que permite que a gente converse com outra pessoa do outro lado do mundo. Há milagres de Deus, pequenos e grandes, que vivem acontecendo por aí, com a gente sabendo ou não. E há o milagre da inclusão.
Esse é a gente mesmo que faz, quando reconhece que é preciso adaptar o mundo em que vivemos para pessoas de diferentes tipos, e não apenas para aquelas que nascem dentro de um certo padrão. Quando isso acontece, então surgem rampas nas calçadas, vagas demarcadas nos estacionamentos e banheiros especiais para pessoas especiais.
Outro dia fui a um Shopping em Santos e lá tinha tudo isso. O que fui fazer lá? Oras, fui ao cinema. Isso mesmo. Como fui ao cinema se não posso enxergar? Bem, não posso enxergar, mas posso ouvir. E fui ouvir King Kong, aquele gorilão que apronta um bocado antes de ser morto pela força aérea que naquela época ainda era uma fraca aérea. Xi! Contei o final!
Ainda bem que o cinema era adaptado e tinha estacionamento para minha cadeira de rodas. Tudo bem que a gente fica numa das primeiras fileiras, aquelas do gargarejo, mas para mim não fez grande diferença. Mas o mais incrível não foi o filme. O que impressionou mesmo foi uma privada do Shopping, uma privada milagrosa.
Não espalha, mas ali milagres acontecem. Se as pessoas ficarem sabendo vai ter romaria para visitar a privada, gente vendendo miniaturas da privada e até mais um feriado nacional: o Dia da Privada. Então vamos deixar isso só entre nós, tá?
Vou contar como descobri as propriedades milagrosas daquela privada. Meu pai levou-me ao banheiro e havia duas privadas reservadas para deficientes. Duas! Incrível, né? Geralmente não tem nenhuma e na melhor das hipóteses tem uma. Mas ali tinha duas. Uma estava ocupada, a outra entupida. Então precisamos esperar. Foi aí que aconteceu (coloca uma música de fundo aí).
Eis que a porta da privada, que trazia um belo emblema azul e branco indicando ser reservada para deficientes, se abriu e saiu um jovem com quase dois metros de altura, forte, saradão, desses que malham e surfam. Saiu andando! Sim, ali dentro, naquele pequeno cubículo, longe dos olhares incrédulos deu-se o milagre. O portador de deficiência foi curado e caminhou com suas próprias pernas!
Meu pai ainda procurou pelos cantos do cubículo por uma cadeira de rodas, muletas, bengala, qualquer indício que pudesse comprovar a transformação, mas o milagre tinha sido completo. Como acontece em casos assim, todas as evidências desapareceram. Você não sente vontade de chorar quando testemunha algo assim? Comentários? Deixe os seus no formulário mais abaixo. Sobre este tema, sugiro a leitura do artigo "A Arquitetura Inclusiva e o papel dos Shopping Centers na integração psicossocial das pessoas com deficiência" transcrito da Revista Reabilitação de 11/12/2003 e publicado no site Amputados Vencedores
CIF Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde ORGANIZACAO PAN-AMERICANA DE SAUDE ORGANIZACAO MUNDIAL DE SAUDE Este volume é uma versão em português da International Classification of Functioning, Disability and Health e pertence ao conjunto das classificações internacionais elaboradas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A CIF é um sistema prático, que descreve a saúde e alguns componentes do bem-estar relacionado a ela, de ampla aplicação em diversos campos, como a definição de políticas de saúde e a comparação de dados estatísticos relacionados à área, por exemplo. É uma classificação aplicável a múltiplos aspectos da saúde e serve a várias disciplinas e setores diferentes. Entre seus principais objetivos está o estabelecimento de uma linguagem comum e padronizada para possibilitar a comunicação sobre saúde e assistência médica em todo o mundo, entre várias disciplinas e ciências, proporcionar uma base cientifica para o estudo da saúde e das condições relacionadas a ela, permitir comparações de dados entre países e fornecer um sistema de codificação para sistemas de informação de saúde.
Viver é dádiva divina ...A estrada pode ser cheia de bifurcações e como caminhantes nos deparamos com injustiças , cueldade, uma mídia mentirosa e alienada , uma multidão de excluídos ...quando em nossa Constituição afirmam que todos somos iguais ...quanta hipocrisia ... O poder é o cancer da humanidade e para consegui-los os homens se putrificam ... Não vamos pensar nestas coisas que entristecem nossas almas ...Vamos continuar nossa luta ...o amor é a mola propulsora e somos angariadores de almas ... Vamos fazer de 2006 um ano melhor ...mais justo ...vamos continuar trabalhando em pról da inclusão ,do amor ... vamos tornar este País melhor ... São o exemplo de que com amor conseguimos tudo ... Pedrinho e linda família ... Um 2006 cheio de paz , sucesso, amor , e muitas felicidades !
E o poeta já cantou em versos e prosas: " Se todos fossem iguais a vocês ...que bom seria viver "
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.