Meu pai teve um ataque de nostalgia e resolveu colocar esta foto aqui. Vovô, vovó, meus primos e eu, há uns vinte anos atrás. Não fazia muito tempo que eu tinha chegado em meu novo lar — talvez seja na noite de Ano Novo do primeiro ou segundo ano meu na nova família. Mas não pense que poucos meses antes você encontraria meus primos estavam todos à vontade assim perto de mim.
Nem todos. Quando cheguei eu estava tão estragadinho que causava estranheza até para as crianças. Um de meus primos ficou até com medo de me ver. Na primeira visita, a família toda dele foi ao meu quarto mas ele ficou na sala. Tinham falado tanto de mim, que eu estava pele, ossos e barriga, que eu exalava um cheiro horrível, que eu vomitava por qualquer coisa, que ele achou melhor manter distância.
Bem, tudo aquilo era verdade. Magro eu estava mesmo, porque onde morava ninguém me levava ao McDonald's. Barriga eu tinha também, mas eram meus bichinhos de estimação que depois resolveram ir morar em outro lugar quando tomei alguns vermífugos. Quanto ao cheiro, é verdade. Ninguém sabe direito, mas provavelmente era porque deviam me dar pouquíssima água e meu suor e urina faziam gambá parecer perfume francês. E eu vomitava como forma de defesa, quando alguém queria me pegar no colo.
Felizmente tudo aquilo passou e olha só eu ali, no meio de meus primos e com vovô e vovó que agora estão morando no céu. Vovô sempre dizia que eu tinha nascido com o bumbum virado para a Lua, de tanta sorte de encontrar uma nova família. Bem... cá entre nós... acho que foram eles que tiveram sorte. Por que? Oras, basta você procurar qual é o garoto mais simpático que vê na foto! Achou? Viu onde ele está? Pois é, no centro. É onde colocam a pessoa mais importante na hora do retrato, né? Comentários? Deixe os seus no formulário mais abaixo.
Vinte Coisas que Filhos Adotados Gostariam que Seus Pais Adotivos... SHERRIE ELDRIDGE Vinte Coisas que Filhos Adotados Gostariam que Seus Pais Adotivos Soubessem é uma obra surpreendente sobre as complexas relações e sentimentos entre pais e filhos, do ponto de vista do próprio adotado. Baseada em suas próprias experiências como criança adotada e nos anos de prática como presidente da Jewel Among Jewels Adoption Network, Sherrie Eldridge traz uma abordagem inédita ao dar voz a estas preocupações e propor respostas, oferecendo compreensão, apoio e esperança a todos os envolvidos no processo da adoção. Para conscientizar os pais adotivos sobre as necessidades especiais dos adotados, a autora aponta vinte complexas questões emocionais e lhes ensina a libertar os filhos de sentimentos de medo, abandono, raiva e vergonha.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.