Bem, eu acho que entendo um pouquinho do assunto e posso dar meus palpites. Sofro de paralisia cerebral, deficiência visual e falta de coordenação motora, entre outras coisas e sei que nem tudo o que hoje é chamado de discriminação ou preconceito é isso mesmo. Muito é fruto de ignorância — do verbo ignorar — e falta de informação.
Muitas pessoas realmente não sabem como proceder diante de um portador de deficiências e acabam trocando os pés pelas mãos, nem sempre intencionalmente. Existe desde o tipo que acha que é contagioso, até aquele que interpreta um paraplégico como incapacitado mentalmente. Uma vez eu contei aqui de uma jovem paraplégica que foi a um restaurante com sua mãe. Ao vê-la na cadeira de rodas, o garçom só conversava com a mãe, coisas do tipo, "O que ela vai querer?" "Ela vai beber alguma coisa?".
A informação é essencial, tanto para que não existam "foras" como acredito que foi o da Abrinq, como para que as pessoas não caiam na vala comum daquela compaixão exagerada, olhando para o portador de deficiência como um coitado, desgraçado e amaldiçoado. Muitos deficientes nem mesmo poderiam ser chamados de deficientes, mas alternativos na forma como resolvem as tarefas para as quais utilizamos os olhos, os ouvidos, as mãos, as pernas ou mesmo algumas funções do cérebro.
Com os e-mails que são enviados a este blog descobri quanta gente acabou se beneficiando das historinhas que conto aqui, principalmente no sentido de olhar com outros olhos para pessoas que são diferentes na forma como interagem com o ambiente. Descobri também que muitos pais decidiram mudar seu modo de enxergar um filho portador de deficiência, deixando de olhá-lo como se fosse uma catástrofe familiar, parando de alimentar a coisa mais destrutiva que pode acontecer com qualquer pessoa numa situação assim: a auto-piedade.
Aliás, esse perigo pode ser extravasado também na forma de reivindicações por direitos, como ocorre com toda pessoa que se sente rechaçada em seu convívio social. Às vezes nem é; ela é que se sente assim. Em suma, boa parte daquilo que chamamos de discriminação, preconceito, racismo etc. parte das próprias pessoas que se consideram exageradamente rejeitadas. Seria fragilidade? Seria carência? Falta de auto-estima? Todos nós temos disso, né? Comentários? Deixe os seus no formulário mais abaixo.
Nem Sempre Posso Ouvir Vocês FERNANDA LOPES DE ALMEIDA O aparelho auditivo de Kim a fazia sentir-se diferente de seus amigos. Até ela descobrir que todos têm suas pequenas “diferenças”. Para crianças, o garoto que usa um aparelho de audição e suas dificuldades com os coleguinhas de escola/irmãos etc. Gostoso de ler e fácil de entender.
parabens pelo exemplo. acada história que leio me envergonho cada vez mais de reclamar da minha vida.muito obrigada por me fazerem lembrar do amor de de DEUS.
Eu não esperava tanta emoção nesta história, achei ela linda!! Eu acho que essa discriminação deveria acabar, eu tive que fazer um trabalho de ciências e resolvi entrar nesse site e achei muito comovente, sendo essa história real. Obrigado por me ajudar a ver um portador de deficiência com outros olhos!
Enviado por Caio em 23/05/2006
Nossa...que linda a história de vcs, emocionante...Mario, vc transformou a dor em beleza, que emociona e nos faz acreditar na bondade, solidariedade humana. Isso que vc e sua família fizeram pelo Pedro foi maravilhoso. Graças a Deus, o Pedro, tao frágil e desprotegido, encontrou uma família maravilhosa. Parabéns!!!
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras. O livro é
publicado pela Editora Mondrian.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.