Quando era pequeno, meu pai precisou de um pedacinho de madeira bem pequenininho para colar em um brinquedo seu. O metro de meu avô — desses amarelos, de madeira fininha e de dobrar — era exatamente o tipo de material que meu pai procurava. Ele não achou que faria diferença tirar um pedacinho de um metro tão comprido, então serrou a pontinha que ia do número zero ao um.
A partir daquele dia, e até descobrir o que tinha acontecido, tudo o que meu avô fazia ficava fora de medida. Ele não percebia que seu metro já não começava no zero, mas no um centímetro. Então tudo acabava sendo medido com um centímetro a menos. Só foi descobrir quando mediu com outro metro um lugar que precisava de uma tábua com medida justa e, na hora de serrar, mediu com o metro desfalcado. É claro que a tábua ficou menor.
Por que resolvi contar isso? Por causa daquilo que a criativa escritora Rita Apoena escreveu em seu perfil no Orkut:
"Certa vez, eu fiz trocentos testes na psicóloga. Com exceção de intuição e criatividade, fui reprovada nos outros vinte e dois itens da avaliação. Enfim, uma pessoa desajustada no mundo. Chegando em casa, ora essa, fiz uma bateria de testes para o mundo. Com exceção de sorvete e amigos, o mundo também foi reprovado nos outros vinte e dois itens da minha avaliação."
O problema foi que os testes foram criados para avaliar uma pessoa "normal", aquela pessoa igualzinha a todas as outras, com peso e medidas publicadas pelo IBGE e conferidas pelo INMETRO. Mas a beleza das pessoas está justamente na diversidade. Quando não achamos assim é porque estamos também avaliando os outros pelos padrões que nós mesmos criamos. Mas será que em nosso metro não está faltando um pedacinho? Comentários? Deixe os seus no formulário mais abaixo.
Estórias de Quem Gosta de Ensinar RUBEM ALVES Um dos maiores bestsellers de Rubem Alves, "Estórias de quem gosta de ensinar" é relançado agora pela Papirus. O livro reúne as seguintes crônicas sobre educação: O país dos dedos gordos, Vestíbulo coisa nenhuma!, A maratona safada, Eu ficaria de fora..., O sorteio, “Muito cedo para decidir”, Viagem longa, destino incerto..., A inutilidade da infância, Os grandes contra os pequenos, O avesso, O currículo dos urubus, O urso burro, oiuqóniP, Urubus e sabiás, O sermão das aves, Saber e prazer, Amor ao saber, A lâmina da guilhotina, A verdade do espelho, O que as ovelhas dizem dos lobos, A Imaculada Conceição, “Não era esta a mágica que eu queria”, Aprendendo das cozinheiras, Monjolos e moinhos, Seminário: espalhando sêmen, Escola: fragmento do futuro.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.