Dê só uma olhada na data aí em cima. Agora compare com a data da última vez que saiu alguma coisa aqui. Percebeu? Isso mesmo. Meu pai anda super ocupado e meu blog fica às moscas. Ou seria às traças? Tudo bem, você entendeu o que eu quis dizer.
Eu sei que ele está cheio de serviço, que vive correndo de lá para cá, que para atender seus compromissos está fazendo das tripas coração. Só me preocupa se ele fizer do coração tripas. Aí a coisa enrosca.
Mas tudo bem, eu vou ajudando do jeito que posso. Aliás, eu ajudo um bocado nesta família, pois se não fosse por mim, já pensou que vida chata eles levariam? Meu pai não teria assunto para escrever este blog maneiro. Eu sou sua inspiração.
Minha irmã não teria escrito seu livro, não teria nem visto a cor do dinheiro da venda dos livros, do prêmio do COFEN, do Troféu Fumagalli... Ela só se esqueceu de que eu, como tema principal, tenho direito a 50%. Ou seria mais?
O livro dela, Uma Luta Pela Vida, está participando agora de mais um concurso literário, o 4º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. O resultado sai no final de agosto. Quero só ver se ela vai se esquecer de dividir o prêmio comigo...
A vida é assim. Tem pessoas que fazem as coisas e são vistas. Outras, como eu, trabalham nos bastidores, influenciando vidas. Tenho certeza de que tem um montão de gente por aí como eu, influenciando vidas. Veja que bonito isto que meu pai recebeu em um e-mail:
"Certa vez li uma história de um grupo de judeus que fugiam dos nazistas. Eles precisavam transpor uma montanha e com eles iam os enfermos, os velhos e as crianças. Muitos idosos acabaram se prostrando à beira do caminho dizendo:
- Não passamos de um fardo; sigam sem nós.
Porém os outros lhes disseram:
- As mães precisam de um descanso. Então, ao invés de vocês ficarem aí sentados para morrer, por que não carregam os bebês o tempo que puderem carregar?
Assim que aqueles idosos sentiram os bebês aninhados em seus seios e começaram a caminhar, fizeram todo o caminho até o outro lado da montanha. Eles lhes deram uma razão para viver." - Ruby Dee
Alguém contou para meu pai de um filme, "A lenda do pianista do mar", que é muito interessante. Principalmente em um diálogo, onde a criança, nascida em um navio, deduz o significado da palavra orfanato. É ali que encontro muito do significado de vida de pessoas como eu, que parecem — só parecem — improdutivas e com uma vida sem sentido, porém fazem todo o sentido do mundo pela influência que têm em outros.
É isso, tudo depende de que ponto de vista você olha. No filme, acho que a criança diz algo mais ou menos assim para sua visão de orfanato: Um lugar onde as crianças entretêm adultos sem filhos. No filme o garotinho se chama "1900", que é o ano em que nasceu. Eu me chamaria "1982". Por extenso? "Quinze de Abril de 1982". Quinze? Oba! Meu aniversário tá chegando! Parabéns para mim, nessa data querida...
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A Lenda do Pianista do Mar Um garoto nasce em pleno alto-mar, ganhando o nome do ano em que nasceu: 1900. A criança cresce num mundo encantado de fortes ventos tempestuosos e cobertas balançando, conhecendo toda a existência disponível a seu toque nos confins do transatlântico em que nasceu. Já crescido, seu talento natural no piano chama a atenção da lenda do jazz Jelly Roll Morton, que sobe a bordo para desafiar 1900 para um duelo. Indiferente com sua súbita notoriedade, 1900 mantém uma fixação pelo mar, sendo sempre seduzido pelos sons do oceano.
Elenco: Tim Roth (1900) Pruitt Taylor Vince (Max) Mélanie Thierry (Garota) Bill Nunn (Danny Boodmann) Peter Vaughan (Dono da loja de música) Niall O'Brien (Chefe) Alberto Vasquez (Maquinista mexicano) Clarence Williams III (Jelly Roll Morton) Noriko Aida
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.