Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

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"O ovo de Jeremias" - "Na TV, mas não sou eu"

13/04/2005
Depende do ponto de vista

Dê só uma olhada na data aí em cima. Agora compare com a data da última vez que saiu alguma coisa aqui. Percebeu? Isso mesmo. Meu pai anda super ocupado e meu blog fica às moscas. Ou seria às traças? Tudo bem, você entendeu o que eu quis dizer.
angry, grr

Eu sei que ele está cheio de serviço, que vive correndo de lá para cá, que para atender seus compromissos está fazendo das tripas coração. Só me preocupa se ele fizer do coração tripas. Aí a coisa enrosca.

Mas tudo bem, eu vou ajudando do jeito que posso. Aliás, eu ajudo um bocado nesta família, pois se não fosse por mim, já pensou que vida chata eles levariam? Meu pai não teria assunto para escrever este blog maneiro. Eu sou sua inspiração.

Minha irmã não teria escrito seu livro, não teria nem visto a cor do dinheiro da venda dos livros, do prêmio do COFEN, do Troféu Fumagalli... Ela só se esqueceu de que eu, como tema principal, tenho direito a 50%. Ou seria mais?

O livro dela, Uma Luta Pela Vida, está participando agora de mais um concurso literário, o 4º Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura. O resultado sai no final de agosto. Quero só ver se ela vai se esquecer de dividir o prêmio comigo...

A vida é assim. Tem pessoas que fazem as coisas e são vistas. Outras, como eu, trabalham nos bastidores, influenciando vidas. Tenho certeza de que tem um montão de gente por aí como eu, influenciando vidas. Veja que bonito isto que meu pai recebeu em um e-mail:

"Certa vez li uma história de um grupo de judeus que fugiam dos nazistas. Eles precisavam transpor uma montanha e com eles iam os enfermos, os velhos e as crianças. Muitos idosos acabaram se prostrando à beira do caminho dizendo:

- Não passamos de um fardo; sigam sem nós.

Porém os outros lhes disseram:

- As mães precisam de um descanso. Então, ao invés de vocês ficarem aí sentados para morrer, por que não carregam os bebês o tempo que puderem carregar?

Assim que aqueles idosos sentiram os bebês aninhados em seus seios e começaram a caminhar, fizeram todo o caminho até o outro lado da montanha. Eles lhes deram uma razão para viver." - Ruby Dee


Alguém contou para meu pai de um filme, "A lenda do pianista do mar", que é muito interessante. Principalmente em um diálogo, onde a criança, nascida em um navio, deduz o significado da palavra orfanato. É ali que encontro muito do significado de vida de pessoas como eu, que parecem — só parecem — improdutivas e com uma vida sem sentido, porém fazem todo o sentido do mundo pela influência que têm em outros.

É isso, tudo depende de que ponto de vista você olha. No filme, acho que a criança diz algo mais ou menos assim para sua visão de orfanato: Um lugar onde as crianças entretêm adultos sem filhos. No filme o garotinho se chama "1900", que é o ano em que nasceu. Eu me chamaria "1982". Por extenso? "Quinze de Abril de 1982". Quinze? Oba! Meu aniversário tá chegando! Parabéns para mim, nessa data querida...

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A Lenda do Pianista do Mar
Um garoto nasce em pleno alto-mar, ganhando o nome do ano em que nasceu: 1900. A criança cresce num mundo encantado de fortes ventos tempestuosos e cobertas balançando, conhecendo toda a existência disponível a seu toque nos confins do transatlântico em que nasceu. Já crescido, seu talento natural no piano chama a atenção da lenda do jazz Jelly Roll Morton, que sobe a bordo para desafiar 1900 para um duelo. Indiferente com sua súbita notoriedade, 1900 mantém uma fixação pelo mar, sendo sempre seduzido pelos sons do oceano.

Elenco:
Tim Roth (1900)
Pruitt Taylor Vince (Max)
Mélanie Thierry (Garota)
Bill Nunn (Danny Boodmann)
Peter Vaughan (Dono da loja de música)
Niall O'Brien (Chefe)
Alberto Vasquez (Maquinista mexicano)
Clarence Williams III (Jelly Roll Morton)
Noriko Aida

"O ovo de Jeremias" - "Na TV, mas não sou eu"



 

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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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