Meu pai é um medroso. Só pode ser. Perder uma oportunidade dessas?! Ah, eu conto, sim, vou contar, quero contar! Sabe o que? Que meu pai foi dar uma palestra em Foz do Iguaçu e encontrou lá o Osmar Santos expondo seus quadros. Encontrou é modo de dizer. Sabe o que aconteceu? Nada.
Isso mesmo, nada! Meu pai viu o cara, viu os quadros e ficou nisso. Você sabe, o Osmar Santos, aquele que era um super radialista até um caminhão bêbado atravessar o seu caminho. Ah, se eu pudesse falar! Sabe o que faria agora mesmo? Conversaria com meu pai para saber tim-tim por tim-tim a razão de nem chegar perto do Osmar.
Minha conversa com meu pai seria algo assim, tenho certeza:
— Pai, não me diga que você foi até lá, viu o Osmar e nem o cumprimentou.
— Fui, vi, não...
— Chegou perto, pelo menos.
— Bem, sim e não. Na volta ele ficou quase ao lado no avião, do outro lado do corredor.
— E...?
— E o que?
— Pelo menos falou um oi, disse que gostava dos quadros, que você também já pintou...
— Não.
— Eu não acredito! Uma foto, pai, uma foto! Todo mundo quando encontra um famoso corre lá tirar uma foto ao lado dele... Pensou? Botava no seu site, fazia o maior farol...
— Também não... sei lá, fiquei sem jeito...
— Você, sem jeito?! Sobe num palco, faz gato e sapato, fala pelos cotovelos... com essa cara de sério deixa a turma surpresa ao descobrir que existe um palhaço debaixo do terno... Sem jeito?!
— É, Pedro, fico sem jeito quando encontro gente assim. Tem gente que tá com tudo em cima e vive reclamando. Outros, como você, nascem com deficiências e fazem um bocado, se desenvolvem, aprendem, tudo bem, mas nunca souberam o que é ter tudo funcionando... Já um cara como o Osmar...
— O que tem um cara como o Osmar?
— Oras, ele estava por cima e de repente viu o tapete ser puxado. Perdeu o que tinha de melhor, a voz, a locução. Tipo João do Pulo, o campeão olímpico, que perdeu a perna; tipo João Carlos Martins, o pianista que perdeu o movimento dos dedos... Gente que está no topo, desce no fundo e se supera, entende? Ou pessoas comuns, donas de casa, profissionais, estudantes como meu amigo Cristóvão de Barros, que levou um tiro na coluna, ficou paraplégico e hoje toca seu próprio negócio... Nossa! Tem tantos outros heróis assim por aí... Gente que dá a volta por cima, começa de novo, se reinventa, serve de exemplo...
— Só por isso você ficou sem jeito de ir lá falar com ele...
— Só por isso. Lá tinha tanta gente achando que eu era alguma coisa só porque sou palestrante, e a grande atração estava bem ali, sentado naquela cadeira de rodas e rodeado de quadros em cores vibrantes. O cara é a cara dos quadros que pinta, sabia? Vibrante, alegre, parece que está o tempo todo dizendo pra gente, “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”. E tem gente se lamuriando por aí só porque quebrou a unha, perdeu o cabelo, ganhou umas estrias, engordou...
— Já entendi.
— Entendeu o que?
— Você, não ter dado a mão pra ele, não ter tirado uma palhinha de prosa, não ter ficado ao lado pra uma foto... Você é um medroso, pai! Medroso! Medroso! Medroso!
A voz inconfundível de "Osmar Santos" ainda pulsa na memória de milhões de pessoas. Finalmente, uma biografia compreende totalmente este fenômeno da comunicação. A partir de uma ampla pesquisa em arquivos de imprensa, pessoais e familiares, o jornalista Paulo Matttiussi revive em um texto emocionante a trajetória de glória e sucesso do maior nome da comunicação esportiva, interrompida repentinamente por um acidente que silenciaria para sempre as locuções inesquecíveis do "pai da matéria". Esta passagem é narrada com riqueza de detalhes, como uma verdadeira seqüência cinematográfica que prende a atenção do principio ao fim. Imperdível.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.