Quem mais arregalou os olhos com a minha chegada foi minha nova irmã, Lia. Ela tinha só seis anos e não sabia se olhava, se fugia, se chorava. Meu novo irmãozinho era o Lucas, que tinha a minha idade, só um mês mais velho. Também ficou desconfiado daquela coisinha embrulhada em um cobertor que Maria passou para os braços de minha nova mãe. Era eu.
Saímos do aeroporto e viajamos para São Paulo em uma confusão de movimentos e sons que eu nunca tinha ouvido. Todos no carro pareciam conversar ao mesmo tempo, mas às vezes o silêncio caía como chumbo sobre meus novos pais. Eles tinham muito para pensar. Estariam arrependidos? Acho que não.
No caminho minha nova mãe percebeu que eu piscava os olhinhos quando as luzes das ruas passavam sobre o meu rosto. Isso deu a todos uma esperança de que eu não era totalmente cego, apenas estava impedido de enxergar por causa da catarata. O futuro mostraria que não era tão simples assim. Acho que chegamos no apartamento que seria meu novo lar bem tarde, porque todos estavam querendo dormir. Maria e seu filho, que iriam ficar uns dias em São Paulo para um tratamento foram dormir no quarto de meus novos irmãos, que foram dormir com minha nova mãe. Eh! eh! adivinha para quem eu sobrei? Para dormir com meu pai. Dormir é modo de dizer, porque tossi a noite inteira e tinha espasmos porque o estômago já estava vazio.
Apesar do frio, durante o trajeto o vidro do carro foi aberto várias vezes para deixar sair meu cheiro que não era fraco. Imagine ficar quatro anos sem banho e com pouca água e você vai entender que meu organismo não funcionava como o de uma criança qualquer. Eu era um verdadeiro gambazinho, mesmo depois de Maria ter dado alguns banhos. O problema é que meu hálito também não ajudava e muito tempo depois meus pais iriam descobrir que meus dentes eram completamente revestidos por uma camada de mineralizada de tártaro que foi se tornando quebradiço até revelar dentes perfeitos. Hoje tenho 21 anos e nenhuma cárie. Será que a receita é ficar os primeiros 4 anos de vida sem nenhuma higiene bucal? Crianças: não tentem fazer isto em casa!
Deficiente Visual: um Novo Sentido de Vida SONIA MARIA SALOMON Propostas psicopedagógicas para ampliação da visão reduzida. Esta é a principal contribuição desse livro destinado a indivíduos que tenham visão subnormal. Oitenta por cento dos legalmente cegos têm visão útil para fins funcionais.
...que meu nome é Pedro
e nasci cego e incapacitado de
falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não
ligava muito para mim e vivi meus primeiros
quatro anos deitado de costas com minha perna
amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão
logo abaixo de meu joelho direito.
Nada de beijos e abraços,
brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos
foram só de sobrevivência
naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a
barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido,
porque ninguém me ensinou.
Depois de desmamado, minha mãe
me manteve vivo com uma mistura de água, farinha
de mandioca e açúcar que eu tomava em
um copo, pois perdi a habilidade de sugar.
Minha avó era quem
cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a
maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar
a alguém. Então... bem, esta é a história que
você irá ler em meu diário que, na verdade, é
escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não
consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo
fazer um diário como este. Mas acho que papai
vai fazer um bom trabalho tentando
adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se
pudesse.
Mas não é só
para contar minha vida que este blog existe.
Papai é escritor e profissional de comunicação
e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados
deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma
pequena ajuda de pessoas que os compreendam.
Existe um mundo diferente daquele onde a maioria
das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco
disso. Isso eu também quero contar.
Minha
irmã se inspirou em minha história para
escrever este
romance
que ganhou um prêmio literário e foi escolhido
para fazer parte da coleção
Anjos de Branco, coordenada pelo
escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio
e a apresentação é de autoria do escritor José
Louzeiro, ambos da Academia
Brasileira de Letras.
Minha
irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando
eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela
tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca"
preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco".
Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia
Personae o livro Uma
Luta Pela Vida é muito bom.
Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.
Lia
fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu
respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e
outras pessoas para ir juntando a história toda.
Além disso, ela foi procurar informações em
antigas correspondências, álbuns de fotos e até
em exames médicos e radiografias.
Hoje ela está mais confiante e
generosa.
Até ganhei um ursinho!
Ela
costumava me levar ao médico, hidroterapia e
fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica
para consertar meus defeitos de fábrica. Toda
hora inventava um "recall"
para ver se dava para trocar alguma peça em mim!
Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como
o papai tem péssima memória, irá recorrer à
Lia e ao seu livro "Uma
Luta pela Vida" para escrever este blog.
Você também poderá ler uma entrevista que a
jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com
minha irmã clicando
aqui.
Tenho também um irmão, Lucas, que é muito
legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no
mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será?
Nunca escutei! Ele é muito generoso também.
Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que
no chão, para eu não cair, quando fazia muito
frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado.
Aprendi a fazer isso devagar para ele não
acordar.