Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!Pedro quer contar sua história. Ele é uma pessoa especial, que nasceu com paralisia cerebral, catarata congênita e incapacidade de andar, falar e fazer muitas outras coisas. Alguns chamariam Pedro de excepcional, deficiente físico, deficiente mental, incapacitado, impossibilitado, prejudicado... Nossa! São tantos os nomes que acho melhor ficar só com especial!

Quer escrever para mim?


 

- "Amarrado numa cama"

14/01/2004
Quero contar

Oi, meu nome é Pedro e este é meu diário. Bem, não tenho certeza do que vou escrever aqui, mas acho que serão reflexões de minha vida e experiência. Na verdade, não vou escrever coisa alguma. Papai fará isso. E nem vou estar sabendo o que está sendo escrito aqui pois será papai quem tentará adivinhar o que penso e o que eu escreveria.
LOL

Você não entendeu, não é mesmo? Tudo bem, eu explico. A questão é que sou uma pessoa especial. Não posso andar, falar ou enxergar, portanto não sou capaz de escrever ou expressar meus pensamentos. Vou contar a você mais sobre isto logo abaixo e também nos próximos dias.
LOL
Se você já leu a coluna à direita, já sabe um pouco de meus antecedentes. Enquanto eu estava naquela pobre condição, Deus estava fazendo Sua obra a uns 1.400 quilômetros de onde eu morava. Um homem, aquele que agora chamo de "papai", estava aproveitando seu horário de almoço caminhando no centro da cidade de São Paulo, quando uma garota se aproximou com uma revista em sua mão.

Ela deu a ele a revista, cujo título era "Visão", uma revista semanal de notícias que já não é publicada. Ela tentava vender a ele uma assinatura e ele estava por demais interessado na foto da capa para prestar atenção ao que a garota falava. A foto era de um pobre garotinho morando nas ruas. Seu rosto estava sujo e ele tinha nuvens de tristeza em seus olhos. Papai ficou tão impressionado que nem pensou duas vezes antes de assinar a revista.
sad
Evidentemente ele se arrependeu disso mais tarde, principalmente por não gostar de gastar dinheiro desse modo. Ele sempre diz que leva um escorpião em seu bolso, só para evitar enfiar sua mão ali. Estávamos em 1986 e seus pensamentos o sacudiam como um temporal que se aproxima.

Quando papai chegou em casa naquela noite, seus pensamentos estavam uma verdadeira confusão. Havia aquela espécie de fogo queimando dentro de seu peito, do tipo que você sente quando parece que alguma coisa vai acontecer. Ele leu o artigo na revista com o coração apertado. Todos os rostos daquelas criancinhas, como fantasmas caminhando pelas ruas, o tocaram. Algo precisava ser feito, mas o quê?

Mamãe, quer dizer, aquela que viria a ser minha segunda mãe, sentiu que havia algo de errado, mas não perguntou. Passou-se um ou dois dias até papai conversar com ela sobre adotar uma criança. Ela disse que sempre teve esse pensamento em seu coração. Com dois filhos naturais, um menino de quatro anos de idade como eu e uma menina de seis, eles não tinham planos para outros filhos naturais. Mas a idéia de salvar alguém da vida nas ruas foi algo que começou a mexer com seus corações.
wink
Creio que o que mais tocou papai foi a percepção de que neste mundo existe rejeição. Talvez você não tenha sido rejeitado por seus pais, mas eu fui. Todavia, mesmo assim, mesmo que minha mãe e meu pai, a quem nunca conheci, tenham me rejeitado ou abandonado, o Senhor iria tomar conta de mim e o fator determinante nisso era Sua compaixão. Os novos papai e mamãe que Ele estava preparando para mim eram pessoas como você. Não havia nada de especial neles além do fato de que Deus estava trabalhando atrás dos bastidores. Ele Se compadece de Sua criação rejeitada; Ele tem pena de nós.

As pessoas deste mundo vivem curiosas com o que estará acontecendo conosco e mostram grande interesse nas notícias e nos boatos, alguns chegam a ser como vampiros assistindo TV em busca dos mais recentes sofrimentos e horrores, mas não se moverão em compaixão. Todavia... "quando meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me recolherá" (Salmo 27:10). Isto é maravilhoso! O Amável cuida do que não é amado. E Ele cuidaria de mim, como cuidou de verdade!

Uma Luta Pela Vida
LIA PERSONA

O romance de Lia Persona, "Uma luta pela vida", pega o sofrimento humano num de seus aspectos mais dolorosos. Em primeiro lugar porque mostra a luta de um menino contra as dificuldades múltiplas : de andar, de falar, de ouvir, de pensar. Ao descrever como um corpo de criança é dominado por um sem-número de males, atinge a romancista um nível seguro de narração, usando o contraponto de um diário, da própria narradora, como espelho em que se refletem suas certezas e suas dúvidas. Outro ângulo, pelo qual seu romance pode ser incorporado integralmente por quem o lê, está no levantar um ideal de enfermagem, em que a palavra "cuidar" assume sentido abrangente e total. O estilo de Lia Persona é ao mesmo tempo, e com igual intensidade, pleno e plano. Cada frase sua mostra, com direiteza, o menino inserido em sua clausura, em que quase total fechamento à vida que fluía fora dele. Como curar aquela criança, que não era dela, mas que não podia abandonar? - ANTONIO OLINTO - Academia Brasileira de Letras

- "Amarrado numa cama"



 

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...que meu nome é Pedro e nasci cego e incapacitado de falar ou andar, devido a problemas genéticos, paralisia cerebral, catarata congênita e microftalmia. Minha mãe natural não ligava muito para mim e vivi meus primeiros quatro anos deitado de costas com minha perna amarrada à cama, para não cair. Demorou para eu perder a cicatriz causada pelo cordão logo abaixo de meu joelho direito.

Nada de beijos e abraços, brincadeiras ou risadas. Meus primeiros anos foram só de sobrevivência naquele barraco muito quente em uma favela. Eu vivia doente, com a barriga cheia de vermes, e até os 4 anos era incapaz de comer alimento sólido, porque ninguém me ensinou. Depois de desmamado, minha mãe me manteve vivo com uma mistura de água, farinha de mandioca e açúcar que eu tomava em um copo, pois perdi a habilidade de sugar.

Minha avó era quem cuidava mais de mim, pois minha mãe passava a maior parte do tempo nas ruas. Isso até a avó morrer e minha mãe decidir me dar a alguém. Então... bem, esta é a história que você irá ler em meu diário que, na verdade, é escrito por meu novo pai, pois, como já disse, não consigo falar, ver, andar, escrever ou até mesmo fazer um diário como este. Mas acho que papai vai fazer um bom trabalho tentando adivinhar o que eu gostaria de contar ao mundo se pudesse.

Mas não é só para contar minha vida que este blog existe. Papai é escritor e profissional de comunicação e marketing, por isso este blog serve também para mostrar como meus amigos, chamados deficientes, podem ser pra lá de eficientes com uma pequena ajuda de pessoas que os compreendam. Existe um mundo diferente daquele onde a maioria das pessoas vive e papai decidiu mostrar um pouco disso. Isso eu também quero contar.



Minha irmã se inspirou em minha história para escrever este romance que ganhou um prêmio literário e foi escolhido para fazer parte da coleção Anjos de Branco, coordenada pelo escritor Antonio Olinto. É dele o texto do prefácio e a apresentação é de autoria do escritor José Louzeiro, ambos da Academia Brasileira de Letras.

Minha irmã é enfermeira e cuidou muito de mim, até se mudar para o exterior. Quando eu vim morar neste lar eu tinha quatro anos e ela tinha só seis, mas logo me adotou como sua "boneca" preferida. Ehrr... quero dizer, "boneco". Ela conta tudo isso no livro. O nome dela é Lia Persona e o livro Uma Luta Pela Vida é muito bom.


Minha irmãzinha e futura enfermeira
ainda olhava desconfiada em 1987.

Lia fez um trabalho muito legal de pesquisa a meu respeito, entrevistando papai, mamãe, vovó e outras pessoas para ir juntando a história toda. Além disso, ela foi procurar informações em antigas correspondências, álbuns de fotos e até em exames médicos e radiografias.


Hoje ela está mais confiante e generosa.
Até ganhei um ursinho!

Ela costumava me levar ao médico, hidroterapia e fisioterapia, e vivia pesquisando alguma nova técnica para consertar meus defeitos de fábrica. Toda hora inventava um "recall" para ver se dava para trocar alguma peça em mim! Até equoterapia eu fiz com ela ao meu lado! Como o papai tem péssima memória, irá recorrer à Lia e ao seu livro "Uma Luta pela Vida" para escrever este blog. Você também poderá ler uma entrevista que a jornalista Fernanda Do Couto S. Riberti fez com minha irmã clicando aqui.

Tenho também um irmão, Lucas, que é muito legal e ajuda a cuidar de mim. Quando morava em casa dormíamos no mesmo quarto e ele vivia dizendo que eu ronco. Será? Nunca escutei! Ele é muito generoso também. Como a minha cama ficava ao lado da dele, só que no chão, para eu não cair, quando fazia muito frio eu puxava o cobertor dele e me cobria dobrado. Aprendi a fazer isso devagar para ele não acordar.


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